Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura
domingo, 28 de junho de 2026
Claudine à l’école – uma narrativa fluente, cheia de cor e de graça
Apetece ler de um trago este Claudine à l’école, de Colette e Willy, seu marido. Não sabemos exactamente qual a fatia de rigor linguístico, de esmero estilístico e de exuberância da acção que se deve a cada um dos co-autores, mas a leitura de La Chatte, assinada apenas por ela, já nos tinha proporcionado uma apreciação que esta nova leitura veio apenas confirmar. Parece plausível acreditar que o génio literário de Colette pouco fica a dever ao de seu marido e empregador – empregador porque Willy é conhecido por ter pago a tarefeiros literários para escreverem o que, depois, ele assinava, tendo a relação entre ambos começado, precisamente, por essa ocupação (ou coincidido com ela).
A narradora, Claudine, é uma miúda de quinze anos, inteligente, culta, de apurado sentido crítico, contestatária, bem-parecida e amante da natureza. Órfã de mãe, vive com o pai, homem culto e tolerante, apaixonado pela malacologia (!), que apoia a filha e a deixa crescer livre de constrangimentos. Quase toda a acção do romance decorre no espaço da escola que frequenta, numa aldeia sem grandes atractivos – Montigny –, mas que ela adora.
Um pouco à maneira das peças de teatro, a narradora começa por descrever os espaços e por apresentar as personagens que virão a participar na acção. Mas não o faz com a economia da didascália. Os retratos físicos e psicológicos são já anunciadores de muito do que virá a ocorrer e obedecem ao critério da minúcia descritiva, servida por uma utensilagem estilística admirável.
Contrariamente ao que acontece nas narrativas “à suspense”, a apresentação das personagens indicia já com bastante clareza o que poderá vir a acontecer e que tipo de comportamento podemos antecipar da parte delas. É o que acontece, por exemplo, com o Dr. Dutertre, delegado cantonal, e com a sua protegida Mademoiselle Sergent, a nova professora, ali colocada graças à intervenção do delegado junto do ministro, seu amigo. Não tardaremos a perceber que o médico aproveita a sua função e ascendente sobre a comunidade escolar para satisfazer, de maneira pouco discreta, uma libido exigente, nomeadamente com as jovens adolescentes. No final, a relação do médico com Mlle Sergent é descoberta pela mãe desta, que dá asas ao seu desgosto e provoca um escândalo com grande espalhafato. Com a adjunta da professora, “la jolie Aimée Lanthenay”, passa-se o mesmo: a narradora dá bem cedo conhecimento da sedução que a jovem de dezanove anos, recém-saída da escola normal, exerce sobre ela, e, de resto, a aproximação entre ambas estabelece-se logo nas primeiras páginas, graças ao subterfúgio das lições particulares de Inglês que Claudine solicita ao pai benevolente. Páginas à frente, veremos como Mademoiselle Sergent logra atrair a jovem adjunta, frustrando o desejo de Claudine…
Entretanto, somos longamente informados sobre os conteúdos de ensino ministrados à época (início do século XX), aos quais a narradora não poupa ácidas e merecidas críticas: problemas de aritmética cujos enunciados se desdobram numa multiplicidade de pormenores e de exigências suplementares que os tornam de uma complexidade desarmante: «Oh! qual é a imaginação malsã, o cérebro depravado onde germinam estes problemas revoltantes com que nos torturam? […] Odiosas suposições, hipóteses inverosímeis que me tornaram refractária à aritmética para toda a minha vida!»» (p. 44); a caligrafia, trabalhada com um cuidado mais próprio da joalharia: «Maintenant, recopiez-moi ça en ronde, d’abord, et en bâtarde après.» (tipos de letra, p. 61); solfejo; canto; desenho; temas de composição impensáveis: «O tempo não respeita o que fizemos sem ele» (p 88) …
Abundam, como seria de esperar, os episódios de zanga entre colegas, de divertimentos, até que chega o exame que dará acesso à escola normal. Todo o ensino está focado nos exames a que estas adolescentes, quase todas candidatas a professoras do antigo ensino primário serão sujeitas, mas Claudine, ainda que a eles se sujeite, recusa a carreira que as colegas, maioritariamente de modestas famílias rurais, ambicionam, para se verem livres dos trabalhos agrícolas.
Como os exames decorrem na sede do distrito e duram mais do que um dia, professoras e alunas são obrigadas a deslocar-se de comboio e a hospedar-se localmente, o que propicia mais uma série de episódios envolvendo alunas, professoras e examinadores.
O romance termina com a visita do Ministro da Agricultura a Montigny. Toda a comunidade escolar se desdobra em esforços para revestir a aldeia de flores, ramagens, papel de seda, etc. – tudo sabiamente trabalhado para causar a admiração geral e testemunhar do reconhecimento pela ministerial visita, o que inclui a frase de boas-vindas ortografada com flores. É que o delegado cantonal espera um empurrãozinho do amigo ministro que lhe permita chegar a deputado. Mas tudo isto condimentado com recorrentes referências à professora Sergent e à sua adjunta Aimée, que escondem mal a sua atracção mútua e se expõem quase despudoradamente, para desgosto da ressabiada Claudine.
Temos aqui um romance, uma narrativa ficcional, mas também, em certa medida, um documento epocal, uma espécie de tela de uma parte da sociedade francesa no início do século XX e, muito em particular, da escola em meio rural. Uma pintura a cores deliciosa, saída de uma paleta pródiga.
18/06/2026
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