Entre os Espinhos da Dor, Francisca Félix
Conheci a Francisca Félix na Feira do Livro de Lisboa, há duas semanas, numa sessão de autógrafos. Ela autografava o seu primeiro romance – Entre os Espinhos da Dor. Quis lê-lo autografado.
Já o li. De
lápis na mão.
Um
parêntesis inicial: sempre entendi a prática do comentário e da crítica
literária como um exercício com uma importante componente pedagógica: falar ou
escrever sobre um livro lido é um acto de comunicação ao outro das impressões e
emoções que experimentamos durante essa leitura, usando para isso, eventualmente,
sugestões resultantes da comparação com outros textos, mas sem dispensar os
instrumentos conceptuais que a análise literária disponibiliza. Esta concepção
exclui, quer a exegese laudatória, que sacrifica o rigor ao elogio fácil, quer
o uso da crítica como arma de arremesso, que sacrifica o rigor à malevolência.
A crítica há-de ser verdadeira, avessa a preconceitos, isenta, cortês. Fim do
parêntesis.
Francisca
Félix é uma jovem de quinze anos. Igual a Rimbaud em precocidade. A primeira
interrogação que nos ocorre é esta: com quinze anos de idade, já se pode
escrever um romance? Parece que sim, mas… vamos ao cerne da questão.
Há um
leitmotiv neste romance que funciona como bússola ou teorema a carecer de
demonstração: «mesmo quando a vida nos quebra, continuamos perfeitos». Esta
ideia, expressa pelo menos em cinco ocasiões (pp. 57, 172, 264, 345 e 379), com
pequenas variantes, orienta o discurso narrativo e como que obriga a narradora,
Isabel, a multiplicar as situações dramáticas, a plantar os “espinhos da dor”,
de forma a que as personagens “quebradas” logrem ultrapassar-se, recuperando o
que foi eventualmente perdido, ou temporariamente afastado, para se recomporem
na perfeição.
A ideia é
generosa, e a sinceridade emotiva com que é glosada revela uma maturidade
sensível. Todavia, o leitor não deixa de sentir que aquelas situações, que se
sucedem a ritmo acelerado, por vezes impeditivo de uma imediata absorção do
decurso temporal, são comandadas pelo fito posto na demonstração do teorema: é
preciso que muitas coisas corram mal, com muita frequência, às mesmas
personagens para que elas se revelem “perfeitas”, porque capazes de ultrapassar
todos os infortúnios: aborto espontâneo, deslealdade relacional, tentativas de
suicídio, malquerença parental, acidentes graves, desmaios, surto epidémico,
exílio, etc., etc., etc. Uma pletora de dor que torna este romance inaugural
algo melodramático, tremendista.
No tocante
aos informantes temporais, há elisões, na linha do tempo, que aproximam
ocorrências distantes, devendo o leitor esforçar-se por acertar o relógio da
sua leitura pessoal ao relógio da narradora. Por exemplo, na p. 101, cap. 14,
sem que haja mudança de capítulo, anuncia-se: «Anos depois […]. Já não tenho dezasseis anos […]. Agora tenho vinte e dois, sou
enfermeira e a responsabilidade não espera por mim».
Acontece
algo idêntico com os informantes espaciais. Transições abruptas surpreendem o
leitor: no cap. XXXVII, p. 263, passa-se do cemitério para a quinta sem que
haja solução de continuidade, isto é, sem que algo medeie o que se passa num
espaço e no outro; no cap. XXXVIII, p. 273, Isabel e Duarte deitam-se em
Portugal e acordam na Grécia.
Outra
estranheza do leitor ocorre no capítulo XX e seguintes, quando Isabel, depois
de descobrir uma putativa traição do namorado, sofre um grave acidente que a
deixa inconsciente e, mais tarde, com “amnésia retrógrada” (p. 158). Sendo a
sua tarefa imprescindível para o prosseguimento da narrativa (ela é uma
narradora protagonista omnipresente), Isabel, inconsciente, continua a ver e
ouvir tudo o que se passa com ela e à sua volta.
Claro que
estes processos não surpreenderiam numa narrativa de outro tipo, com um leitor
previamente ciente da subversão deliberada da normatividade do género. Não é o
caso em Entre os Espinhos da Dor, romance respeitador do essencial dos
preceitos tradicionais.
A condição
de acidentada com traumatismos múltiplos, incluindo a perda de memória,
propicia à narradora a demonstração de conhecimentos no âmbito da medicina
neurológica, facto a que não será alheia a vocação da autora para uma profissão
no ramo da saúde.
Pormenor
pouco relevante, mas posto à consideração da mesma autora: não se vê o
interesse de reproduzir diálogos em inglês, seguidos da respectiva tradução em
português, durante várias páginas. Uma primeira fala na língua de partida e na
de chegada bastaria para o leitor perceber que todas as seguintes, em
português, seriam a tradução das originais, em inglês.
No domínio
do estilo, há ocorrências que merecem uma referência positiva. Alguns exemplos:
«E a morte de Sofia, que tinha roubado qualquer chão que eu ainda pudesse
pisar.» (p. 25), «O silêncio do clube era diferente, como se a calma tivesse
pousado ali de propósito» (p. 58), «encostei o olhar ao dele» (p. 59), «Atrás
dela vinham o Afonso e a Marta, trazendo consigo o frio da rua» (p. 67), «as
fotografias espalhadas entre eles como pedaços de uma verdade partida» (p.
136), «Eu, ele e a ausência de Sofia a encher o quarto inteiro» (p. 336),
Um
parêntesis final: este conspecto é da autoria de alguém que leu muitos
romances, ao longo da vida, estudou alguns deles por necessidade profissional e
criticou outros por mero gosto do comentário crítico. Leu-os, estudou-os,
criticou-os, mas nunca escreveu nenhum, não se acha capaz de o fazer e admira
quem se lança nesta aventura criativa. Se Francisca Félix foi capaz destas
primícias, com quinze anos apenas, este aspirante a crítico literário serôdio
entende que ela pode ir longe, continuando a ler, a estudar e a praticar, mas
também tendo o cuidado de dar o seu escrito a ler e a apreciar por alguém que
tenha o traquejo necessário para ultrapassar a simples adjectivação de uma
narrativa como “interessante”. Entre os Espinhos da Dor é muito mais do
que interessante; é um romance que revela sensibilidade, inteligência e
capacidade de verbalização ficcional que pode e deve vir a dar frutos mais suculentos.
André Gide escreveu «É com os bons sentimentos que se faz má literatura», mas
acrescentou: «Nunca disse nem pensei que só se faz boa literatura com os maus
sentimentos». É uma boa lição a seguir: os bons e os maus sentimentos são todos
boa matéria-prima para um romance. Fico à espera do próximo, Francisca.

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