domingo, 28 de junho de 2026

 

Entre os Espinhos da Dor, Francisca Félix

 

Entre os Espinhos da Dor

Conheci a Francisca Félix na Feira do Livro de Lisboa, há duas semanas, numa sessão de autógrafos. Ela autografava o seu primeiro romance – Entre os Espinhos da Dor. Quis lê-lo autografado.

Já o li. De lápis na mão.

Um parêntesis inicial: sempre entendi a prática do comentário e da crítica literária como um exercício com uma importante componente pedagógica: falar ou escrever sobre um livro lido é um acto de comunicação ao outro das impressões e emoções que experimentamos durante essa leitura, usando para isso, eventualmente, sugestões resultantes da comparação com outros textos, mas sem dispensar os instrumentos conceptuais que a análise literária disponibiliza. Esta concepção exclui, quer a exegese laudatória, que sacrifica o rigor ao elogio fácil, quer o uso da crítica como arma de arremesso, que sacrifica o rigor à malevolência. A crítica há-de ser verdadeira, avessa a preconceitos, isenta, cortês. Fim do parêntesis.

Francisca Félix é uma jovem de quinze anos. Igual a Rimbaud em precocidade. A primeira interrogação que nos ocorre é esta: com quinze anos de idade, já se pode escrever um romance? Parece que sim, mas… vamos ao cerne da questão.

Há um leitmotiv neste romance que funciona como bússola ou teorema a carecer de demonstração: «mesmo quando a vida nos quebra, continuamos perfeitos». Esta ideia, expressa pelo menos em cinco ocasiões (pp. 57, 172, 264, 345 e 379), com pequenas variantes, orienta o discurso narrativo e como que obriga a narradora, Isabel, a multiplicar as situações dramáticas, a plantar os “espinhos da dor”, de forma a que as personagens “quebradas” logrem ultrapassar-se, recuperando o que foi eventualmente perdido, ou temporariamente afastado, para se recomporem na perfeição.

A ideia é generosa, e a sinceridade emotiva com que é glosada revela uma maturidade sensível. Todavia, o leitor não deixa de sentir que aquelas situações, que se sucedem a ritmo acelerado, por vezes impeditivo de uma imediata absorção do decurso temporal, são comandadas pelo fito posto na demonstração do teorema: é preciso que muitas coisas corram mal, com muita frequência, às mesmas personagens para que elas se revelem “perfeitas”, porque capazes de ultrapassar todos os infortúnios: aborto espontâneo, deslealdade relacional, tentativas de suicídio, malquerença parental, acidentes graves, desmaios, surto epidémico, exílio, etc., etc., etc. Uma pletora de dor que torna este romance inaugural algo melodramático, tremendista.

No tocante aos informantes temporais, há elisões, na linha do tempo, que aproximam ocorrências distantes, devendo o leitor esforçar-se por acertar o relógio da sua leitura pessoal ao relógio da narradora. Por exemplo, na p. 101, cap. 14, sem que haja mudança de capítulo, anuncia-se: «Anos depois []. Já não tenho dezasseis anos []. Agora tenho vinte e dois, sou enfermeira e a responsabilidade não espera por mim».

Acontece algo idêntico com os informantes espaciais. Transições abruptas surpreendem o leitor: no cap. XXXVII, p. 263, passa-se do cemitério para a quinta sem que haja solução de continuidade, isto é, sem que algo medeie o que se passa num espaço e no outro; no cap. XXXVIII, p. 273, Isabel e Duarte deitam-se em Portugal e acordam na Grécia.

Outra estranheza do leitor ocorre no capítulo XX e seguintes, quando Isabel, depois de descobrir uma putativa traição do namorado, sofre um grave acidente que a deixa inconsciente e, mais tarde, com “amnésia retrógrada” (p. 158). Sendo a sua tarefa imprescindível para o prosseguimento da narrativa (ela é uma narradora protagonista omnipresente), Isabel, inconsciente, continua a ver e ouvir tudo o que se passa com ela e à sua volta.

Claro que estes processos não surpreenderiam numa narrativa de outro tipo, com um leitor previamente ciente da subversão deliberada da normatividade do género. Não é o caso em Entre os Espinhos da Dor, romance respeitador do essencial dos preceitos tradicionais.

A condição de acidentada com traumatismos múltiplos, incluindo a perda de memória, propicia à narradora a demonstração de conhecimentos no âmbito da medicina neurológica, facto a que não será alheia a vocação da autora para uma profissão no ramo da saúde.

Pormenor pouco relevante, mas posto à consideração da mesma autora: não se vê o interesse de reproduzir diálogos em inglês, seguidos da respectiva tradução em português, durante várias páginas. Uma primeira fala na língua de partida e na de chegada bastaria para o leitor perceber que todas as seguintes, em português, seriam a tradução das originais, em inglês.

No domínio do estilo, há ocorrências que merecem uma referência positiva. Alguns exemplos: «E a morte de Sofia, que tinha roubado qualquer chão que eu ainda pudesse pisar.» (p. 25), «O silêncio do clube era diferente, como se a calma tivesse pousado ali de propósito» (p. 58), «encostei o olhar ao dele» (p. 59), «Atrás dela vinham o Afonso e a Marta, trazendo consigo o frio da rua» (p. 67), «as fotografias espalhadas entre eles como pedaços de uma verdade partida» (p. 136), «Eu, ele e a ausência de Sofia a encher o quarto inteiro» (p. 336),

Um parêntesis final: este conspecto é da autoria de alguém que leu muitos romances, ao longo da vida, estudou alguns deles por necessidade profissional e criticou outros por mero gosto do comentário crítico. Leu-os, estudou-os, criticou-os, mas nunca escreveu nenhum, não se acha capaz de o fazer e admira quem se lança nesta aventura criativa. Se Francisca Félix foi capaz destas primícias, com quinze anos apenas, este aspirante a crítico literário serôdio entende que ela pode ir longe, continuando a ler, a estudar e a praticar, mas também tendo o cuidado de dar o seu escrito a ler e a apreciar por alguém que tenha o traquejo necessário para ultrapassar a simples adjectivação de uma narrativa como “interessante”. Entre os Espinhos da Dor é muito mais do que interessante; é um romance que revela sensibilidade, inteligência e capacidade de verbalização ficcional que pode e deve vir a dar frutos mais suculentos. André Gide escreveu «É com os bons sentimentos que se faz má literatura», mas acrescentou: «Nunca disse nem pensei que só se faz boa literatura com os maus sentimentos». É uma boa lição a seguir: os bons e os maus sentimentos são todos boa matéria-prima para um romance. Fico à espera do próximo, Francisca.

 

 

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