INDIANA, DE GEORGE SAND, OU O PRAZER DAS “BELLES-LETTRES”
Grande parte da acção de Indiana decorre na outrora
chamada Ilha Bourbon, no Oceano Índico, a nove mil quilómetros de Paris,
renomeada Reunião, no decurso da Revolução Francesa, uma vez que Bourbon era
sinónimo de Monarquia. Paris e arredores constituem o outro espaço importante
da acção, e a geografia explica a identidade étnica de duas das personagens – Indiana,
a protagonista, e Noun, sua “femme de chambre”, ambas crioulas.
Ler hoje Indiana (1831), de George Sand, mulher de grande
inteligência, audácia, generosos sentimentos e ideais progressistas, a perto de
dois séculos de distância da publicação do romance, suscita a comparação com
Garrett, seu contemporâneo, e de Viagens na Minha Terra, que começou a
ser publicado cerca de doze anos mais tarde.
Vivíamos o século do Romantismo e há, naturalmente, um
parentesco de corrente literária entre a escritora francesa e o nosso Visconde
liberal.
Em termos de estilo, a escrita de Sand é de tal maneira rendilhada
que parece, por vezes, deixar a de Garrett a alguma distância: neste, primam as
digressões descontraídas, o recurso ao idiolecto popular, os comentários facetos,
sem prejuízo da sensatez e acutilância com
que aprecia o estado das coisas num Portugal que raramente deixou de ser
pequenino, por muito que algum patriotismo insista em gabar-lhe uma grandeza
sonhada; nela, o discurso é sempre sério e a reflexão sustentada, eivada de
gradações na análise psicológica das personagens, tudo isto num francês que,
hoje, nos parece ir além do literário, de tal maneira a riqueza vocabular e o
uso de uma conjugação quase abstrusa nos deixam por vezes de gramática e
dicionário na mão, cientes de que já ninguém escreve – e, muito menos, fala assim. Há, num e noutro,
tiradas de um romantismo à outrance, que hoje nos soam como construções
totalmente artificiais, sendo certo que estamos a falar de literatura romântica
e que, entre ela e o nosso tempo, o realismo veio pôr água na fervura – às
vezes exagerando também na fotografia naturalista que nos legou. (A
multiplicidade de correntes que lhe sucederam não são agora chamadas à
colação).
Há também alguma semelhança entre certas personagens de
ambos estes romances.
Raymon e Carlos (personagens densas, modeladas) sofrem da
mesma volubilidade sentimental, ainda que Carlos sofra mais consistentemente
dessa sua inconstância do que Raymon de Ramière, aparentemente hábil em deitar
para trás das costas os compromissos amorosos. Enquanto Carlos, depois de feitos
os estragos, se penitencia com o reconhecimento de ser “um monstro”, “um
aleijão moral”, com ”horror de si mesmo” (Carta a Joaninha, cap. XLVI), Raymon
(sem “d”) é charmoso e sedutor, mas também egocêntrico e oportunista. Capaz de
arrependimento e de remorso, cede facilmente, no momento decisivo, aos
superiores interesses do eu, sem a penitência que Carlos se impõe. Nas palavras
do narrador (Sand atribui o género masculino à personagem incumbida de narrar a
história):
cometia erros como se disso
não se desse conta, e o homem da véspera esforçava-se por enganar o do dia
seguinte (cap. IV).
Noun é uma espécie de Joaninha em versão crioula. É certo
que está bem longe da mulher-anjo que Joaninha encarna, mas ambas morrem de
amor: Joaninha enlouquece e morre (cap. XLIX), Noun suicida-se (cap. VIII).
Quanto à protagonista, cujo nome dá o título ao romance de Sand, ela é a
tradicional vítima do casamento de conveniência – neste caso, com o vetusto
coronel Delmare. Com os seus dezanove anos de idade, mas de grande maturidade
intelectual e sentimental, ela sofre sucessivos reveses e debate-se com
decisões contraditórias e dramáticas, na conturbada relação (pouco ou nada
concupiscente, pela parte que lhe toca) com o sedutor Raymon (de vinte e cinco
anos). Este casamento de conveniência da personagem Indiana é a clara projecção
da situação vivida pela própria autora, igualmente casada com um marido muito
mais velho, autoritário e brutal. Tal matrimónio conjugava a fortuna de François-Casimir
Dudevant ao título nobiliárquico de Sand.
Quanto ao processo narrativo, há, em Sand como em Garrett,
a típica interlocução ou simples interpelação romântica narrador-leitor virtual,
muito mais frequente e incisiva nas Viagens do que em Indiana –
Leitor amigo e benévolo, caro
leitor meu indulgente, não acuses, não julgues à pressa o meu pobre Carlos; e
lembra-te daquela pedra que o Filho de Deus mandou levantar à primeira mão que
se achasse inocente… A adúltera foi-se em paz, e ninguém a apedrejou. (Viagens,
cap. XXII)
Perdoa-me, leitor amigo, uma
reflexão última no fim deste capítulo já tão secante, e prometo não reflectir
nunca mais.» (Viagens, cap. XLII)
Fica mais ou menos provado,
para o leitor e para mim, que esta infeliz se atirou ao rio por desespero […]. (Indiana,
cap. IX) –.
Há tiradas em que a efusão lírica atinge extremos de
eloquência que a sensibilidade de hoje sente como artificial (e que omito, dada
a sua extensão).
É comum a ambos, também, o discorrer sentencioso. No caso
de Sand, alguns exemplos:
Quem acredita na miséria que
não conhece? (cap. X)
O mais honesto dos homens é
aquele que pensa e que age da melhor forma, mas o mais poderoso é o que melhor
sabe escrever e falar (cap. X)
[…] este mundo elegante e
jovem […] aceitava renegar o ridículo dos privilégios do passado, mas […] não
dispensava o benefício das vantagens do presente. (cap. X)
Creio que a opinião política
de um homem é o homem inteiro. Fale-me do seu coração e da sua cabeça,
dir-lhe-ei as suas opiniões políticas. (cap. XIV)
No caso de Garrett:
O frade era, até certo ponto,
o Dom Quixote da sociedade velha. O barão é, em quase todos os pontos, o Sancho
Pança da sociedade nova (cap. XIII)
[…] cada homem rico,
abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis. (cap. III)
[…] eu pergunto aos
economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos
que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à
desmoralização, à infância, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à
penúria absoluta, para produzir um rico? (cap. III)
Um aspecto curioso da narrativa de Sand é a configuração
policial que ela toma em algumas ocasiões, deixando o leitor em suspenso. Isso
acontece, por exemplo, no cap. IX, quando o narrador, depois de dar como
praticamente provado o suicídio de Noun, acrescenta:
como provavelmente ela não
voltou ao castelo depois de ter deixado Raymon, como ninguém a encontrou nem
pôde ajuizar das suas intenções, nenhum indício de suicídio veio esclarecer o
mistério da sua morte.
Ora, se não há indício de suicídio, é caso para suspeitar
que poderá ter havido homicídio e que Raymon, desejoso de se desfazer da
relação com a bela crioula, a fim de encetar outra relação, desta vez com
Indiana, igualmente crioula e bela, mas de condição superior, poderá dele ter
sido o autor.
O trigésimo e penúltimo capítulo acaba com este parágrafo:
Então Ralph tomou a noiva nos
braços e levou-a, para se precipitarem ambos na torrente…
O leitor foi preparado para este desenlace e dá-o como
adquirido: a história acaba aqui. Engana-se. Há um último capítulo, não
numerado, intitulado Conclusão, em que o narrador viaja para a Ilha Bourbon,
onde encontra Indiana e Ralph, finalmente curado de uma patológica inibição
sentimental imposta a si mesmo, anos a fio, e impeditiva de se declarar à
prima. Isolados, em local recôndito da ilha, vivem um amor feliz, longe de tudo
e de todos.
No cap. X das Viagens, Garrett ironiza com a
superioridade do francês no domínio da literatura:
É o primeiro episódio da
minha Odisseia: estou com medo de entrar nele porque dizem as damas e os
elegantes da nossa terra que o português não é bom para isto, que em francês
que há outro não sei quê…
Não partilho da opinião das damas e dos elegantes da nossa
terra, mas, por via das dúvidas, esclareço que, por muito diferentes que sejam,
Indiana e Viagens na Minha Terra são duas obras notáveis.
