segunda-feira, 7 de setembro de 2026

 


O resto é lembrança, de Albino Matos –

ou: o resgate do passado

Há títulos que são transparentes: Os Maias, A Casa Grande de Romarigães, Os Malaquias… – histórias de famílias; outros identificam o protagonista, pródigo em proezas ou actante em tramas dramáticas ou trágicas: Dom Quixote, As Aventuras de Tom Sawyer, Jean Barois (na tradução portuguesa: O Drama de João Barois)…; outros são enigmáticos, podendo apontar para um pormenor descritivo irrelevante ou ter um carácter simbólico: Uma Abelha na Chuva, Mar Morto, Levantado do Chão; etc., etc., etc.

O título do livro de memórias recentemente publicado por Albino Matos, com a chancela das Edições Vieira da Silva (Junho p.p.), tem como título O Resto é Lembrança. Sendo, à primeira vista, fácil de entender, não deixa de causar alguma estranheza ao leitor propenso a deter-se em minúcias: o resto de quê?

O resto é o que fica, depois de a maior parte ter sido usada, é o que sobra ou sobeja, é o que até, por vezes, se pode desprezar, porque o mais importante já foi usado ou usufruído. Mas, se o resto é a lembrança, qual é a maior, e, presumivelmente, mais importante parte? A vida! Porque a lembrança só existe graças à vida, parafraseando Violeta Parra (sem o encanto melódico do pentassílabo castelhano). E se a lembrança é tão importante, ou não fosse o testemunho de uma vida, porquê chamar-lhe resto?

A epígrafe de Louise Glück, a pp. 7, vem em meu auxílio:

We look at the world once, in childhood.

The rest is memory.

Ou seja: vemos o mundo uma vez, na nossa infância; o resto é … lembrança. É esse o título do livro de Albino Matos. Avancei? Não. Continuo com a desagradável sensação de não dilucidar o significado exacto do título. Felizmente, já não tenho de me sujeitar ao exame do 12.º ano, com ou sem correcção digital. Chumbava. Ou talvez não. Fazia como o chatGPT, ao qual recorri como derradeiro recurso: expunha hipóteses, dissertava.

De facto, a resposta é longa e pormenorizada, reveladora de inteligência e de imaginação, ambas artificiais, mas nem por isso menos convincentes. Transcrevo-a, na íntegra, no fim deste comentário que começa desastradamente, ou não se metesse em trabalhos quem se mete em atalhos. Mas, já agora, antes de sair da capa para, finalmente, entrar no livro, a interpretação “mais profunda” do GPT:

todos nós temos, algures na memória, um “primeiro mundo” que já não podemos voltar a ver como o vimos então.

Cá está. Talvez… Seguramente, mesmo. É este “primeiro mundo” que Albino Matos nos pranta diante dos olhos, com uma verve (facúndia, devia eu dizer, que não há como preterir o vernáculo a favor do estrangeirismo), um afinco e um rigor memorialístico que impressionam o comentador, por acaso da mesma idade e naturalidade do Autor: 1948, Porto.

Pois bem, julgava este comentador ir ler um livro de contos, mas este livro, que conta, efectivamente, histórias – e histórias que podiam ser, em muitos casos, pura ficção narrativa – é um livro de “Memórias de infância”, conforme consta da folha de rosto. E não se imagine que todas essas memórias vêm dos cinco, seis ou sete anos. Algumas, sim, mas a recordação mais antiga do narrador (a personagem que fala em nome de Albino Matos e na qual o Autor investiu conhecimento e capacidade de a esse conhecimento dar forma literária) data dos seus vinte e dois meses de vida. Foi então que a progenitora o “apartou”, isto é, o privou de mamar, segundo relato da própria, que bem pudera ser chamado “depoimento” ou não viesse o “infante” (vernáculo que o A. usa abundantemente) a tornar-se juiz, entre outras profissões do Direito.

Recordações, da mais tenra idade até aos tempos de estudante liceal, não faltam nos cinquenta e cinco capítulos deste livro. Algumas delas tocam-me particularmente, porque coincidem (só em parte, claro) com as minhas. É o caso de “A praia”, que relata a experiência da “primeira temporada de praia. Ali mesmo na Foz, na Praia da Luz, a primeira a contar do Farol, no termo do Porto…” Eu ia mais para a do Molhe, um pouco mais à frente, a caminho do Castelo do Queijo, mas tive uma namoradinha na Rua da Senhora da Luz (seria mesmo este o nome daquela ruazinha estreita e íngreme que desemboca, se a memória não me trai, em frente à praia em questão? Na altura, já eu tinha dezasseis ou dezassete anos. Não sei se o Albino Matos, com a mesma idade, continuou a lá ir, beneficiando dos cuidados da tia concessionária da exploração, ou se só lá voltou “já perto dos trinta anos” (p. 181), mas é provável que tenhamos calcorreado os mesmos sítios. Certo é que não nos banhámos duas vezes nas mesmas águas do mar, que todo o mundo é composto de mudança.

Outra lembrança que temos em comum (a minha, muito limitada), é a de Resende, em cuja cercania passei uns dias em miúdo e pude testemunhar o que era a pobreza extrema de tantas famílias. De uma delas, recordo a mulher que me franqueou a entrada numa espécie de choça, sua morada (ou morada do casal, se é que havia casal) adossada a uma pequena encosta e amanhada com tábuas e chapas. A um canto, num cesto de vime, um bebé esquelético. Vai morrer – diz-me a mulher – não tenho leite para lhe dar. E o miúdo que eu era, imaginando-se protagonista de um salvamento in extremis: Vou-lhe buscar leite em pó.

Não sei já, mas, habituado a tomar leite e sendo talvez difícil obtê-lo naquele local, os meus pais devem ter deixado uma lata do tal leite em pó à família que lhe acolhia o rebento habituado a certos mimos. Foi essa lata que fui levar à mãe do bebé. Em vão. O último suspiro do inocente tinha ocorrido. Sem assistência, sem alimento, sem futuro. Isto nos anos cinquenta, em plena “democracia orgânica”, conforme rezava o discurso oficial. Um tempo de que alguns exaltam a bondade. Por ignorância, ingenuidade, inconsciente masoquismo ou pura má-fé.

Feitos estes parêntesis, pede-se um pouco de contenção e de sistematização. Vejamos se consigo:

O que mais incisivamente impressiona este leitor/comentador são as seguintes características do livro:

a.   a abundância e rigor de pormenores respeitantes a locais, a gentes e formas de vida, ao progresso que vai chegando, à organização político-administrativa do território e aos sentimentos identitários de cada comunidade – o que configura um didactismo histórico e etnográfico relevante;

b.   a apropriação (legítima) pelo narrador do sociolecto da sua comunidade de origem;

c.   a multiplicidade de referências e explicações de carácter lexical.

Tratando-se de “memórias de infância” do Autor, não podia deixar de ser este o protagonista de grande parte das narrativas, mas não o é de todas elas, já que são também muitas aquelas em que parentes próximos, colegas de escola e uma mão cheia de patrícios compõem uma bem recheada galeria de tipos, que vão da Maria Ferreira e Amadeu, ao Zé Pereira, ao Lério, ao Benjamim Madureira e por aí adiante. Ora estas personagens, esculpidas a cinzel afiado (além de memorialista, o A. pode gabar-se de dotes retratistas, ou de escultor, para continuar no registo metafórico do cinzel), vestem roupas da época, falam à moda da terra, levam a vida que era a do tempo, trabalham, divertem-se, dizem larachas, são postas diante de novas realidades trazidas pelo (lento) progresso, reagem à novidade, aprendem, adaptam-se. Em suma: mostram ao leitor como se vivia no interior do país, longe das cidades, em terras do Douro Litoral, distrito de Viseu, no início da segunda metade do século XX.

Quanto à língua, há que ter em conta três aspectos: um, o idiolecto do Autor, a sua capacidade de manejar a língua com a destreza e elegância de um prosador a quem não falta nem a riqueza do código (linguístico, que o civil e o penal não são para aqui chamados), nem o domínio da morfossintaxe e dos tropos; outro, o sociolecto local, próprio da comunidade em que viveu durante a infância e adolescência, que o A. incorpora abundantemente no discurso do próprio narrador, levando o leitor a parar um instante para tentar adivinhar o significado de tal ou tal outro vocábulo ou expressão, sempre que não são explicados, porque acontece serem-no, como, por exemplo, logo no primeiro capítulo, primeira página:

… até ao portão da horta (cancelo, digo, não se dizia portão)

Mas também acontece o contrário

Menos enquanto, a bola escapa ao merouço dos jogadores e vem rasteira … (cap. 19)

O uso da contracção e da corruptela é intensivo:

tudo isto literal e histórico, mamigos, realidade pura … ia buscar à vila e vinha pi-acima a vender (cap. 18)

… o nome era Leixandre, bá-lá-ber se nos entendemos… (cap. 32)

… e lá vou eu empós dela … (cap. 43)

… hora e meia a duas horas, consante, com direito a parar uma vez ou duas a beber um copo na venda … (cap. 46)

… – A ‘bença’ – dizia-lhe eu ao chegar … (cap.50)

mas tem-se alguma dificuldade em distinguir o que é propriamente corruptela daquilo que é herança do português medieval, ele próprio descendente do galego falado na região antes da fundação da nacionalidade, quando se estendia «a Galiza para sul até à linha do rio Vouga, ou mesmo do rio Mondego» (p. 212).

O terceiro aspecto que anuncio mais acima está estreitamente ligado ao anterior: o A. detém-se frequentemente na explicação da origem e do significado do vocabulário usado, o que faz deste livro de memórias um valioso alfobre de carácter linguístico, seguramente muito útil para quem se dedica a este estudo, tanto numa perspectiva sincrónica (o funcionamento da língua em determinada localidade e época), quanto na perspectiva diacrónica (a evolução da língua, particularmente a partir do galego).

A título de exemplo, do léxico do avô do Autor constam

termos do português medieval, que se encontram em Fernão Lopes (cap. 51),

caso de “çarrar” (encostar), “saluços”, “notairo”, “cuitelo.

Enfim, o A. relativiza a questão:

É estranho, mas é assim mesmo, a gente criava-se com duas línguas, ao mesmo tempo, a língua da escola, da igreja, da gente culta, e a língua dos caminhos, do povo, dos pobres, da gente miúda: a língua do padrão, a par da língua de pobre, como aqui entendo designá-la. Na verdade, não serão exactamente duas línguas, mas antes duas normas distintas de um mesmo sistema linguístico, a norma culta, por um lado, e a norma local, por outro; ou talvez melhor, a norma nacional e a norma regional, que aqui chamo língua de pobre.

Quando me refiro à “utilidade” deste livro, estou, obviamente, a pensar em estudos de História da Língua, nos departamentos de Linguística das Universidades.

Três apontamentos rápidos, para terminar:

1.   É notória a identificação solidária do A. com a sua comunidade de origem e o seu desgosto pela inexistente lembrança (voltamos ao título!) desses tempos, gentes  e costumes:

é uma pena que tal mundo vá ficar para sempre no desconhecimento dos viventes, ignorado pela história, desconhecido pela arte, desprezado pela literatura. Como se nunca tivesse existido.

Mas existiu… E mexeu com muita gente. E essa não era uma gente qualquer, era gente lá para a frente, para o dizer como diria o Martigueiro. Gente de grande valor, que não conhecia medo ou desânimo, que fez das fraquezas forças … (cap. 38)

2.   Igualmente assinalável a sensibilidade ao sofrimento dos mais fracos, expostos ao rigor da lei:

Lei havia, nesse tempo, previdência é que não; justiça havia, para defender o sistema e a propriedade, segurança social vou ali e já venho. (cap. 21)

3.   Enfim, um “currículo” religioso que não me surpreende, como não me surpreendem, aliás, as anteriores observações, tendo em conta o que de Albino Matos conheço, através de certa rede social:

Tal currículo [catequese, no capítulo discente e no docente] não sei se teve outra virtude, mas deu-me ao menos alguma familiaridade com a doutrina bíblica, em particular o Novo Testamento, com destaque para os Evangelhos; útil em algumas discussões que teria depois com certos fariseus que viria a encontrar pela vida fora, mas nada mais do que isso. (cap. 54)

Este é um livro que me vai ficar na lembrança.

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Da IA:

Os versos de Louise Glück — “We look at the world once, in childhood. The rest is memory.” — podem ser entendidos como uma reflexão muito profunda sobre a infância, a perceção e a memória.

Uma tradução possível seria:

“Olhamos para o mundo uma vez, na infância. O resto é memória.”

O que significa “olhamos para o mundo uma vez”?

Glück parece dizer que a infância é o momento em que vemos o mundo verdadeiramente pela primeira vez. Quando somos crianças, tudo é novo: uma árvore, uma casa, a chuva, um animal, uma viagem, o rosto dos pais, o medo, a alegria.

Não temos ainda uma história pessoal suficientemente longa para comparar aquilo que vemos com experiências anteriores. Por isso, o mundo apresenta-se como novidade absoluta.

Um adulto pode olhar para uma árvore e simplesmente reconhecer: é uma árvore. Uma criança pode olhar para aquela mesma árvore como algo misterioso, enorme, quase mágico.

“The rest is memory”

A segunda frase é mais melancólica.

Depois da infância, já não vemos o mundo pela primeira vez. Passamos a olhar para as coisas através daquilo que já vivemos.

Uma casa deixa de ser simplesmente uma casa: lembra-nos outra casa.
Uma determinada música traz uma época da nossa vida.
Um cheiro pode fazer regressar alguém.
Um lugar pode fazer-nos pensar em quem éramos quando estivemos lá antes.

Ou seja, a experiência presente começa a ser filtrada pelo passado.

E há aqui uma ideia ainda mais radical: talvez aquilo a que chamamos “ver o mundo” seja, em grande parte, recordar o mundo.

Há também uma dimensão de perda

A frase é bonita, mas não é propriamente otimista. Há nela uma espécie de luto pela infância.

Não podemos voltar àquele primeiro olhar.

Podemos voltar ao mesmo jardim, à mesma casa, à mesma praia, mas já não somos a criança que os viu pela primeira vez. Quando regressamos, não encontramos exatamente o lugar original; encontramos o lugar misturado com a nossa memória dele.

É como se Glück dissesse:

A infância acontece uma única vez. Depois passamos a viver, em certa medida, à sombra daquilo que vimos quando éramos crianças.

E isso ajuda a explicar uma característica muito forte da poesia de Glück: a tentativa de regressar através da linguagem àquilo que já não pode ser recuperado diretamente.

Uma interpretação ainda mais profunda

Há uma ambiguidade interessante no verbo “look”.

Ela não diz “We experience the world once” (“experimentamos o mundo uma vez”). Diz “We look at the world once”olhamos para o mundo.

Isso torna a frase quase filosófica: há um primeiro olhar, inocente e original, e depois há todos os outros olhares, que já carregam conhecimento, experiência, perda e memória.

Por isso, os versos podem ser lidos como uma definição muito condensada da passagem da infância para a idade adulta:

infância → descoberta → experiência → memória.

E talvez seja precisamente por isso que a frase nos toca tanto: todos nós temos, algures na memória, um “primeiro mundo” que já não podemos voltar a ver como o vimos então.

 


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