quarta-feira, 18 de março de 2026

Sísifo e os tempos que correm

Sartre foi um humanista existencialista defensor da causa do proletariado; Camus, foi, no dizer do primeiro, um “humanista burguês”, defensor da revolta contra a revolução. Sartre debruçou-se sobre a existência, que pré-existe à essência, que a modela ou define e que é o objecto da História; Camus viu na existência um intricado novelo em que o absurdo domina e conduz a História num emaranhado sem horizonte. Identifico-me preferentemente com o primeiro, pelo seu engajamento na acção; admiro o segundo, pela profundidade cultural e argumentativa, mesmo discordando; invejo a ambos pelo seu enorme génio.

A revolta, que consente ao indivíduo preservar a sua presumível liberdade de pensamento e acção, priva-o da capacidade de determinar a mudança colectiva – pelo menos, no sentido mais favorável ao maior número; a acção concertada do grande número logra atingir uma mudança que prevalece, sob condição de as posições individuais se harmonizarem e as indefectivelmente contrárias serem mantidas sob controlo. A primazia dada à liberdade individual põe o indivíduo no centro do Universo, inoperante face às vicissitudes que atingem o colectivo; a opção “colectivocêntrica”, sujeita as divergências individuais à decisão maioritária e reprime a dissidência, que compromete o vencimento da posição colectiva. A revolta logra ocasionalmente abalar o poder dominante, mas, historicamente, não o derruba; a revolução sai historicamente vencedora, no confronto com o poder estabelecido, e salda-se pelo avanço civilizacional, mesmo quando há, como é de regra, avanços e recuos, nos curto e médio prazos.

No seu conhecido ensaio, Camus imagina um Sísifo cuja existência é absurda, mas cujo esforço para alcançar o cume basta para lhe “encher o coração”, contrariando de algum modo o castigo dos deuses, num tempo mítico que mortifica a consciência e não oblitera a sua solidão; Sartre reconhece a angústia do homem, só no Universo, enquanto espécie, mas acompanhado, enquanto parte de um todo actuante: não é um Sísifo que ele vê, é uma multidão capaz de devolver a rocha ao remetente.

A História está cheia de deuses castigadores e de Sísifos, de Tântalos, de Prometeus que ousam desobedecer, resistir e contrariar os destinos que as divindades lhes querem impor.

No mundo de hoje, de agora, é arriscado imaginar que o esforço para atingir os cumes faça Sísifo feliz. (Já era arriscado no tempo de Camus, e antes, e antes). Mais fácil é constatar que os deuses infligem castigos e parecem levar vencimento. Descontando todos os exageros e impropriedades das comparações, vemos, por toda a parte, Sísifos a lutar por falsos cumes e conformados – uns mais, outros menos – com o absurdo dos castigos a que são sujeitos. Pior: vemos mudanças, de sentido histórica e civilizacionalmente progressista, aparentemente remetidas para as calendas gregas por decisão de deuses, semideuses e heróis.

Sísifo pára um instante, enxuga o suor do rosto, sabe o que o espera, mas hesita: a luta pelos cumes vai recomeçar no sopé – razão para lhe “encher o coração” ou para se alhear/alienar no absurdo dum mundo que é seu, mas onde é estrangeiro?

segunda-feira, 9 de março de 2026

POSSE DO NOVO PR - Uma crítica construtiva sobre o desempenho da comunicação social

Tendo seguido com fervor todas as reportagens dos canais públicos, privados e mistos sobre a posse do novo Presidente da República e a despedida do anterior, e preocupado com o bom nome e proficiência dos nossos “media”, tenho a lamentar alguns aspectos menos positivos da cobertura noticiosa.

Assinalaria, para começar, a lacuna na visualização de alguns metros da deslocação a pé do recém-investido até à Assembleia da República. Posso ter descurado o ecrã enquanto lavava a loiça do almoço, tarefa que não confio ao pessoal da minha casa civil, mas tive a oportunidade de rever posteriormente o referido trajecto, sem interrupção, e a omissão lá estava – maneira de dizer algo atabalhoada, ou não fosse próprio da omissão não estar.

Estranhei também que tivessem mostrado o Sr. Prof. Aníbal Cavaco Silva atrás de um matulão de dois metros, na fila para dar um aperto de mão ao Presidente que mereceu o seu voto convicto (o meu foi só de conveniência). O Prof. parecia o Dr. Marques Mendes, tal era o tamanho do matulão, mas não parecia nada arreliado – ele que geralmente tem aquele ar de quem nunca tem dúvidas, etc., e a quem ninguém paga e todos devem. Parêntesis necessário: em vez do Dr. Marques Mendes, nada obstaria a que eu dissesse “mais parecia eu”, mas, sendo menos conhecido do que o referido ex-candidato, a piada não surtiria efeito.

Outra coisa: não se viu uma única câmara de TV a acompanhar o novo PR a uma casa-de-banho a fim de fazer um xixi, nem antes nem depois da sessão solene na AR ou da sua entrada na nova residência oficial. Como foram horas de acompanhamento por toda a imprensa, ou o Sr. PR goza de uma capacidade de retenção invejável ou a comunicação social perdeu, por falta de comparência, uma oportunidade única de mostrar ao país como urina um PR. Por acaso, aconteceu cair um aguaceiro inesperado, ainda que anunciado pelo IPMA (em previsões lamentavelmente falíveis desde que acabaram as grandes tempestades), o que me obrigou a ir lá fora recolher a roupa pendurada nos arames e que já estava quase seca. Agora, lá vou ter de esperar mais um dia ou dois para a passar a ferro, tarefa que também não confio ao pessoal da casa civil, e pode muito bem ter acontecido ele ter ido às toilettes nessa exacta altura. Uma seca.

Os cumprimentadores estiveram todos muito bem a cumprimentar. Até os daquela agremiação especializada em dar vivacidade à Casa chamada da Democracia (e de inegável tolerância, de resto), em mofas simpáticas dirigidas a colegas do sexo feminino ou “racializadas”, em alteração do curso de objectos paralelepipédicos em zonas aeroportuárias, em maroteiras inocentes com menores de idade e na afixação de cartazes apelando ao cumprimento de obrigações fiscais por etnias distintas da caucasiana. Estiveram todos à altura das suas altas funções.

Mais logo, vou ver o terceiro episódio da George Sand, na 2. Nem que chova.

Viva a República!

 

 

  O resto é lembrança , de Albino Matos – ou: o resgate do passado Há títulos que são transparentes: Os Maias, A Casa Grande de Romarigã...