terça-feira, 12 de maio de 2026

Thomas Mann, A Montanha Mágica


 

THOMAS MANN, A MONTANHA MÁGICA

 

Introdução

Oitocentas páginas compactas de literatura envolvente. O autor bem nos avisa, logo de entrada, no “Propósito”:

«É com profundidade, rigor e minúcia que a iremos narrar [a história] – pois desde quando é que o prazer ou o tédio despertados por uma história são consequência do espaço ou do tempo que ela nos toma? Sem receio de sermos acusados de excesso de meticulosidade, tendemos antes a acreditar que só a minúcia pode produzir verdadeiro prazer» (p. 12).

E tem razão. Há, n’A Montanha Mágica, rigor, minúcia, desenvolvimentos e deambulações de toda a ordem, personagens que dissertam infatigável e profundamente sobre questões de natureza essencialmente filosófica, estreitamente imbricadas com a psicologia, a sociologia, a religião, a política, sem que isso quebre o interesse do leitor, antes o levando a sujeitar as opiniões emitidas pelos contendores ao crivo da sua própria apreciação e convicções pessoais, o que resulta em enriquecimento.

 

Dois obstinados debatentes

Duas destas personagens, são Lodovico Settembrini e Leo Naphta. Settembrini desenvolve para com os primos Hans Castorp e Joachim Ziemϐen uma relação de amizade alimentada por um discorrer permanente sobre a condição humana e a lenta caminhada do homem para um estádio superior, impulsionado por ideais de conhecimento, de solidariedade e de progressivo abandono “das trevas, do temor e do ódio” (p. 180), passando necessariamente por movimentações sociais violentas:

«um dia viria em que todos os homens iriam comparar aqueles três dias de Paris [Revolução anti-absolutista de Julho de 1830] aos seis dias da criação do mundo» (p. 180),

dizia Settembrini, recordando o avô. E isto porque o humanismo

«não era outra coisa senão amor pelo próximo e, por conseguinte, era também política, era também revolta contra tudo o que manchava ou degradava a ideia do humano» (p. 182).

Mais para a frente, o humanista revela a Hans Castorp a sua ligação à Liga Internacional para a Organização do Progresso, que

«promove a fundação de universidades populares, a superação da luta de classes mediante todas as reformas sociais que possam contribuir para esse fim, bem como a abolição das lutas entre os povos, a supressão da guerra por meio do desenvolvimento do direito internacional» (p. 278).

O antagonista de Settembrini é Naphta, o jesuíta que, a dada altura, em aceso debate, lhe diz (e este excerto não passa de um exemplo menor, anedótico até, da gama de assuntos de natureza filosófica, ontológica, religiosa, sociológica, pedagógica dos debates entre estas personagens):

«[…] a acreditar nos sinais que nos chegam, podemos dizer que está iminente uma reabilitação da Escolástica, se é que não se encontra já em pleno curso. Copérnico será derrotado por Ptolomeu. A resistência espiritual à teoria heliocêntrica é cada vez mais intensa e esses esforços serão provavelmente levados a bom termo. A ciência acabará por sentir a compulsão filosófica de voltar a investir a Terra de todas as honras e da dignidade que o dogma religioso lhe acautelava».

Settembrini reage:

«Mas de que forma? Como? Resistência? Compulsão filosófica? Levar a bom termo? Mas de que tipo de voluntarismo é que está a falar? E a investigação incondicional? O conhecimento puro? E a verdade, caro senhor, que anda de mãos dadas com a liberdade, e cujos mártires, longe de ofenderem a Terra, como o senhor acredita, contribuem, sim, para a glória eterna deste planeta?» (p. 446).

E Naphta, retorquindo:

«Caro amigo, o conhecimento puro não existe. É absolutamente incontestável a legitimidade da concepção religiosa da ciência que se encontra resumida na máxima de Santo Agostinho. “Creio para que possa conhecer.” A fé é o órgão do conhecimento e o intelecto é secundário. […]» (p. 447)

Ora, esta mesma personagem que defende a superioridade da fé sobre a ciência, pouco tempo e poucas páginas depois, verbera severamente o “liberalismo manchesteriano” de Settembrini, com uma catilinária estribada nos patriarcas da Igreja, a quem Naphta atribui uma teoria sociológica próxima do socialismo utópico de Proudhon, do marxismo e do anarquismo:

«Os patriarcas da Igreja chamaram aos possessivos “meu” e “teu” palavras corruptas e à propriedade privada usurpação e roubo» (p. 453).

O rol de características e actividades próprias do sistema capitalista (a propriedade privada dos meios de produção, o comércio, a actividade financeira, as leis do mercado, a usura, etc.) que Naphta enumera e verbera longamente desemboca na afirmação de que

«depois de terem passado séculos soterrados, todos estes princípios e critérios económicos [dos patriarcas da Igreja] voltam a emergir no movimento moderno do comunismo» (p. 453).

Indo mais longe, associa a teocracia e os princípios cristãos à ditadura do proletariado, cuja missão consiste na

«salvação do mundo, em prol da redenção do homem e da sua relação filial com Deus, sem Estado e sem classes sociais» (p. 454).

Noutra ocasião, Naphta dá uma “verdadeira lição” a Hans Castorp sobre a história da maçonaria:

«fazer remontar as origens da maçonaria às respeitáveis corporações de pedreiros mais não é do que uma leitura superficial da história. Pelo menos a Estrita Observância conferiu-lhe fundamentos humanos muito mais profundos […] é de assinalar o culto do sepulcro e do esquife […]. Trata-se, em ambos os casos, de um simbolismo das coisas últimas e extremas, de elementos de uma religiosidade ancestral e orgiástica, sacrifícios nocturnos e arrebatados em honra da morte e do devir, da metamorfose e da ressurreição…».

Perante uma caracterização algo assustadora, Hans Castorp inquire:

«Mas o que me diz, professor Naphta? E a tudo isso se dá o nome de maçonaria? E a tudo isso deverei associar na minha mente a figura do nosso iluminado senhor Settembrini?» (p. 578).

E Naphta:

«Não […]! A maçonaria humanizou-se, modernizou-se, santo Deus! Voltou ao bom caminho, reganhou o seu norte, rumo ao utilitarismo […] …»

Porém, depois da alusão à erudição e posses que a maçonaria preza e que caracterizam a burguesia que a integra, mais uma farpa a Settembrini:

«Não devemos de maneira alguma duvidar de que as Lojas dominam o jogo de interesses do mundo e que o nosso simpático senhor Settembrini representa mais do que a sua própria pessoa, já que por detrás dele se escondem forças das quais é ele sectário e emissário…» (p. 579)

 

Outras personagens; pintura e corpo humano

Todavia, noutros contextos, o conteúdo das conversas muda drasticamente. É o que acontece, por exemplo, nos diálogos entre Hans Castorp e o conselheiro Behrens, médico responsável pelos cuidados de saúde do sanatório. É então que, do domínio das ciências mais ou menos especulativas, se passa para o da ciência experimental – química orgânica, entre outras.

Em ocasião em que Castorp e o primo se encontram nos aposentos do médico, a seu convite, compara-se escultura e pintura, em função da “expressão humanística” de cada uma delas. Behrens, que cultiva a arte de pintar, mostra-lhes o retrato de Clawdia Chauchat, jovem mulher que suscita o interesse apaixonado de Castorp, e este interroga:

«Podemos, então, dizer que a plasticidade do corpo feminino se reduz a gordura?».

Behrens responde:

«Gordura, nem mais! […] Palmitina, estearina, oleína […] Com o seu corpo passa-se, de resto, o mesmo […]. Também as suas formas plásticas, na medida em que podemos falar delas, são gordura, ainda que numa proporção mais reduzida do que no corpo feminino.» (pp. 296-297).

Mais à frente, o médico expõe a semelhança ontogénica entre o sistema nervoso central e a epiderme, bem como a composição do corpo humano, que

«consiste, na sua maior parte, em água […] A substância seca perfaz apenas vinte e cinco por cento, dos quais vinte por cento são mera clara de ovo, ou proteínas, se preferir um termo mais elegante, a que se junta uma pitada de gordura e de sal, nada mais».

E, perante a curiosidade de Castorp, Behrens explica o que é “a clara de ovo”:

«carbono, hidrogénio, azoto, oxigénio, enxofre. Fósforo, por vezes. […] Algumas proteínas surgem, por sua vez, combinadas com hidratos de carbono, ou seja, com glucose e amido» (p. 301).

E a vida?

«A vida é, na sua essência, uma mera combustão das proteínas celulares» (p. 302).

Como se vê, está-se aqui bem longe das considerações de Settembrini sobre a vida e o papel do cidadão no avanço civilizacional, mas, em contrapartida, fica-se ciente de que, sem proteínas, não há civilização que nos valha. O romance conjuga sabiamente os domínios da reflexão pura, do conhecimento científico e do comportamento humano, “com profundidade, rigor e minúcia”.

O tempo e o processo narrativo

A temática do tempo, não apenas do tempo que o romance “nos toma”, como já referido, está presente em numerosos passos, insinuando-se quase como obsessão no decurso da narrativa. Trata-se, em geral, da discrepância entre o tempo “objectivo” – o do relógio – e a percepção subjectiva que dele temos, consoante a situação que vivemos, com a dificuldade de a sua mensuração escapar aos nossos sentidos:

«Tomamos consciência do espaço através dos nossos sentidos, da visão e do tacto. Muito bem. Mas que órgão nos permite a percepção do tempo?» (p. 82), «O que designamos por tédio é, portanto, uma abreviação doentia do tempo decorrente da monotonia: a uniformidade constante produz a redução atroz e assustadora dos longos períodos de tempo. Quando um dia se assemelha a todos os outros, todos os outros se assemelham a esse dia.» (p. 123). «Ninguém disse nada durante uns dois ou três minutos, o que nos leva a perceber a dimensão que essas ínfimas unidades podem assumir em certas circunstâncias» (p. 688)

Mas o tempo que o romance “nos toma”, sendo muito, é também um tempo que tende a aproximar as personagens – seres de papel – das pessoas que vemos, que conhecemos, com quem falamos e por quem nutrimos os mais diversos sentimentos. Isto é, A Montanha Mágica, como acontece com muitos outros grandes romances, transpõe a barreira da ficção para nos colocar, durante o tempo de leitura, e mesmo além dele, num contacto quase físico com as suas personagens. Poder-se-ia falar aqui de tempo mítico, um tempo que retira o leitor da escala ou do enquadramento temporal em que ele se move no seu dia-a-dia e o põe num outro plano, integrável no conceito de mitologia degradada (Mircea Eliade).

A descrição das personagens e dos ambientes obedece sempre ao critério do “rigor e minúcia”: nada escapa ao escalpelo do narrador, sem provocar enfado, já que a multiplicidade de pormenores faz do cenário um aparatoso quadro multicolor e contribui fortemente para a caracterização do espaço físico e social do sanatório em que se desenrola a acção – o Berghof.

Uma dessas personagens, Clawdia Chauchat desaparece inexplicavelmente, quando o leitor contava com um desenvolvimento romântico da sua relação com Hans Castorp. Porquê? Boa pergunta. Talvez porque, para o narrador (ou para o autor, vá-se lá saber!),

«a paixão deixa tão pouca margem para o juízo estético como para o moral» (p. 274),

mesmo se

«a arte é ética na medida em que desperta» (p. 135).

Ora, o tal desenvolvimento cumpriria, sem dúvida, o desiderato de despertar.

O discurso em que o narrador assume abertamente o seu estatuto e discorre sobre a sua acção, em diálogo com o leitor virtual, é outra das características do processo narrativo. A atitude dialogante do narrador aproxima-o, naturalmente, do leitor, que tende a sentir-se mais uma personagem, ainda que limitada ao papel de observador e, eventualmente, juiz ou, pelo menos, crítico.

Acontece que o narrador usa de fina ironia para fingir que determinada descrição se deve à habilidade de uma personagem e não dele mesmo:

«Delegámos no jovem Hans Castorp a função de esboçar uma imagem aproximada deste novo e inopinado hóspede (Mynheer Peeperkorn) e há que dizer que ele não se desenvencilhou nada mal dessa tarefa – nós próprios não teríamos feito muito melhor» (p. 622)

Em outra ocasião, é a diferente percepção que instâncias narrativas diversas têm do significado de determinado termo – na ocorrência, um advérbio de tempo:

«Se quiséssemos localizar Hans Castorp no meio daquela animação, encontrá-lo-íamos na sala de leitura, justamente na mesma sala em que outrora (este outrora tem contornos difusos, já que tanto narrador, como herói e leitor não conseguem já definir o seu grau de distância temporal) […]» (p. 630).

Acontece ainda que o narrador assume, com aparente humildade, alguma incapacidade:

«Teríamos sérias dificuldades em explicar por que razão Hans Castorp, que até nutria uma particular paixão secreta por cataratas, não se lembrara ainda de visitar a cascata pitoresca situada na floresta do vale de Flüela» (p. 696).

Ou  confidencia algo sobre o fim do seu labor narrativo:

«Também esta história chegará um dia ao seu termo. Já dura há muito tempo […]» (p. 710).

Ou ainda exprime uma hipotética opinião do leitor:

«Dir-se-á, porventura que o narrador exagera nos contornos românticos da sua narrativa […]» (p. 713).

Frequentemente, a profundidade, rigor e minúcia com que palavras, personagens, atitudes, comportamentos, paisagens e fenómenos atmosféricos são escalpelizados diluem a narração num banho reflexivo-descritivo que, por assim dizer, secundariza a acção, pelo menos se a entendermos numa acepção excessivamente convencional, de movimento das personagens. As mais das vezes, o que se passa passa-se na dialéctica argumentativa, no combate verbal, na apreciação dos ambientes e dos caracteres, na descrição das personagens e dos ambientes.


Um final infeliz

Uma das personagens da narrativa, Clawdia Chauchat, que inspira em Castorp uma paixão arrebatada, desaparece inexplicavelmente, quando o leitor contava com um desenvolvimento romântico da sua relação com Hans Castorp. Porquê? Boa pergunta. Talvez porque, para o narrador (ou para o autor, vá-se lá saber!),

«a paixão deixa tão pouca margem para o juízo estético como para o moral» (p. 274),

mesmo se

«a arte é ética na medida em que desperta» (p. 135).

Ora, o tal desenvolvimento cumpriria, sem dúvida, o desiderato de despertar. Todavia, há que reconhecê-lo, a narrativa chega ao fim com o começo da I Guerra Mundial e Hans Castorp é incorporado, o que parece deixar “a questão em aberto”. É assim mesmo que o narrador conclui, referindo-se ao recém-incorporado Hans Castorp:

«Momentos houve em que da morte e da luxúria carnal viste germinar, no teu reino premonitório, um sonho de amor. Será que deste festim universal da morte, deste ardor perverso e febril, que incendeia o céu chuvoso e crepuscular, poderá também um dia nascer o amor?» (p. 816).

Estávamos no início da I Guerra. Mann faleceu em 1955, aos 80 anos de idade e ao fim de vinte e dois anos de exílio, devido à ascensão e chegada ao poder de Hitler. Conheceu, portanto, a II Guerra Mundial e o seu “festim universal de morte”, que prossegue, nos nossos dias, com designações e geografias diversas, mas não menor perversidade. Para acabar com um voto piedoso, seria tão bom que a grande literatura, de que este romance é um extraordinário exemplo, assim como as artes e as ciências, em geral, ocupassem nos corações e nas mentes do homem o lugar que continua a ocupar o “ardor perverso e febril” da ganância, do egoísmo e do ódio!


Fernando Martins

  O resto é lembrança , de Albino Matos – ou: o resgate do passado Há títulos que são transparentes: Os Maias, A Casa Grande de Romarigã...