THOMAS
MANN, A MONTANHA MÁGICA
Introdução
Oitocentas páginas compactas
de literatura envolvente. O autor bem nos avisa, logo de entrada, no
“Propósito”:
«É
com profundidade, rigor e minúcia que a iremos narrar [a história] – pois desde
quando é que o prazer ou o tédio despertados por uma história são consequência
do espaço ou do tempo que ela nos toma? Sem receio de sermos acusados de
excesso de meticulosidade, tendemos antes a acreditar que só a minúcia pode
produzir verdadeiro prazer» (p. 12).
E tem razão. Há, n’A
Montanha Mágica, rigor, minúcia, desenvolvimentos e deambulações de toda a
ordem, personagens que dissertam infatigável e profundamente sobre questões de
natureza essencialmente filosófica, estreitamente imbricadas com a psicologia,
a sociologia, a religião, a política, sem que isso quebre o interesse do
leitor, antes o levando a sujeitar as opiniões emitidas pelos contendores ao
crivo da sua própria apreciação e convicções pessoais, o que resulta em
enriquecimento.
Dois obstinados
debatentes
Duas destas personagens, são
Lodovico Settembrini e Leo Naphta. Settembrini desenvolve para com os primos
Hans Castorp e Joachim Ziemϐen uma relação de amizade alimentada por um
discorrer permanente sobre a condição humana e a lenta caminhada do homem para
um estádio superior, impulsionado por ideais de conhecimento, de solidariedade
e de progressivo abandono “das trevas, do temor e do ódio” (p. 180), passando
necessariamente por movimentações sociais violentas:
«um
dia viria em que todos os homens iriam comparar aqueles três dias de Paris
[Revolução anti-absolutista de Julho de 1830] aos seis dias da criação do
mundo» (p. 180),
dizia Settembrini, recordando
o avô. E isto porque o humanismo
«não
era outra coisa senão amor pelo próximo e, por conseguinte, era também
política, era também revolta contra tudo o que manchava ou degradava a ideia do
humano» (p. 182).
Mais para a frente, o
humanista revela a Hans Castorp a sua ligação à Liga Internacional para a
Organização do Progresso, que
«promove
a fundação de universidades populares, a superação da luta de classes mediante
todas as reformas sociais que possam contribuir para esse fim, bem como a
abolição das lutas entre os povos, a supressão da guerra por meio do
desenvolvimento do direito internacional» (p. 278).
O antagonista de Settembrini é
Naphta, o jesuíta que, a dada altura, em aceso debate, lhe diz (e este excerto
não passa de um exemplo menor, anedótico até, da gama de assuntos de natureza
filosófica, ontológica, religiosa, sociológica, pedagógica dos debates entre
estas personagens):
«[…]
a acreditar nos sinais que nos chegam, podemos dizer que está iminente uma
reabilitação da Escolástica, se é que não se encontra já em pleno curso.
Copérnico será derrotado por Ptolomeu. A resistência espiritual à teoria
heliocêntrica é cada vez mais intensa e esses esforços serão provavelmente
levados a bom termo. A ciência acabará por sentir a compulsão filosófica de
voltar a investir a Terra de todas as honras e da dignidade que o dogma
religioso lhe acautelava».
Settembrini reage:
«Mas
de que forma? Como? Resistência? Compulsão filosófica? Levar a bom termo? Mas
de que tipo de voluntarismo é que está a falar? E a investigação incondicional?
O conhecimento puro? E a verdade, caro senhor, que anda de mãos dadas com a
liberdade, e cujos mártires, longe de ofenderem a Terra, como o senhor
acredita, contribuem, sim, para a glória eterna deste planeta?» (p. 446).
E Naphta, retorquindo:
«Caro
amigo, o conhecimento puro não existe. É absolutamente incontestável a
legitimidade da concepção religiosa da ciência que se encontra resumida na
máxima de Santo Agostinho. “Creio para que possa conhecer.” A fé é o órgão do
conhecimento e o intelecto é secundário. […]» (p. 447)
Ora, esta mesma personagem
que defende a superioridade da fé sobre a ciência, pouco tempo e poucas páginas
depois, verbera severamente o “liberalismo manchesteriano” de Settembrini, com
uma catilinária estribada nos patriarcas da Igreja, a quem Naphta atribui uma
teoria sociológica próxima do socialismo utópico de Proudhon, do marxismo e do
anarquismo:
«Os
patriarcas da Igreja chamaram aos possessivos “meu” e “teu” palavras corruptas
e à propriedade privada usurpação e roubo» (p. 453).
O rol de características e
actividades próprias do sistema capitalista (a propriedade privada dos meios de
produção, o comércio, a actividade financeira, as leis do mercado, a usura,
etc.) que Naphta enumera e verbera longamente desemboca na afirmação de que
«depois
de terem passado séculos soterrados, todos estes princípios e critérios
económicos [dos patriarcas da Igreja] voltam a emergir no movimento moderno do
comunismo» (p. 453).
Indo mais longe, associa a
teocracia e os princípios cristãos à ditadura do proletariado, cuja missão
consiste na
«salvação
do mundo, em prol da redenção do homem e da sua relação filial com Deus, sem
Estado e sem classes sociais» (p. 454).
Noutra ocasião, Naphta dá uma
“verdadeira lição” a Hans Castorp sobre a história da maçonaria:
«fazer
remontar as origens da maçonaria às respeitáveis corporações de pedreiros mais
não é do que uma leitura superficial da história. Pelo menos a Estrita
Observância conferiu-lhe fundamentos humanos muito mais profundos […] é de
assinalar o culto do sepulcro e do esquife […]. Trata-se, em ambos os casos, de
um simbolismo das coisas últimas e extremas, de elementos de uma religiosidade
ancestral e orgiástica, sacrifícios nocturnos e arrebatados em honra da morte e
do devir, da metamorfose e da ressurreição…».
Perante uma caracterização
algo assustadora, Hans Castorp inquire:
«Mas
o que me diz, professor Naphta? E a tudo isso se dá o nome de maçonaria? E a
tudo isso deverei associar na minha mente a figura do nosso iluminado senhor
Settembrini?» (p. 578).
E Naphta:
«Não
[…]! A maçonaria humanizou-se, modernizou-se, santo Deus! Voltou ao bom
caminho, reganhou o seu norte, rumo ao utilitarismo […] …»
Porém, depois da alusão à
erudição e posses que a maçonaria preza e que caracterizam a burguesia que a
integra, mais uma farpa a Settembrini:
«Não
devemos de maneira alguma duvidar de que as Lojas dominam o jogo de interesses
do mundo e que o nosso simpático senhor Settembrini representa mais do que a
sua própria pessoa, já que por detrás dele se escondem forças das quais é ele
sectário e emissário…» (p. 579)
Outras personagens;
pintura e corpo humano
Todavia, noutros contextos, o
conteúdo das conversas muda drasticamente. É o que acontece, por exemplo, nos
diálogos entre Hans Castorp e o conselheiro Behrens, médico responsável pelos
cuidados de saúde do sanatório. É então que, do domínio das ciências mais ou
menos especulativas, se passa para o da ciência experimental – química
orgânica, entre outras.
Em ocasião em que Castorp e o
primo se encontram nos aposentos do médico, a seu convite, compara-se escultura
e pintura, em função da “expressão humanística” de cada uma delas. Behrens, que
cultiva a arte de pintar, mostra-lhes o retrato de Clawdia Chauchat, jovem
mulher que suscita o interesse apaixonado de Castorp, e este interroga:
«Podemos,
então, dizer que a plasticidade do corpo feminino se reduz a gordura?».
Behrens responde:
«Gordura,
nem mais! […] Palmitina, estearina, oleína […] Com o seu corpo passa-se, de
resto, o mesmo […]. Também as suas formas plásticas, na medida em que podemos
falar delas, são gordura, ainda que numa proporção mais reduzida do que no
corpo feminino.» (pp. 296-297).
Mais à frente, o médico expõe
a semelhança ontogénica entre o sistema nervoso central e a epiderme, bem como
a composição do corpo humano, que
«consiste,
na sua maior parte, em água […] A substância seca perfaz apenas vinte e cinco
por cento, dos quais vinte por cento são mera clara de ovo, ou proteínas, se
preferir um termo mais elegante, a que se junta uma pitada de gordura e de sal,
nada mais».
E, perante a curiosidade de
Castorp, Behrens explica o que é “a clara de ovo”:
«carbono,
hidrogénio, azoto, oxigénio, enxofre. Fósforo, por vezes. […] Algumas proteínas
surgem, por sua vez, combinadas com hidratos de carbono, ou seja, com glucose e
amido» (p. 301).
E a vida?
«A
vida é, na sua essência, uma mera combustão das proteínas celulares» (p.
302).
Como se vê, está-se aqui bem
longe das considerações de Settembrini sobre a vida e o papel do cidadão no
avanço civilizacional, mas, em contrapartida, fica-se ciente de que, sem
proteínas, não há civilização que nos valha. O romance conjuga sabiamente os
domínios da reflexão pura, do conhecimento científico e do comportamento
humano, “com profundidade, rigor e minúcia”.
O tempo e o processo
narrativo
A temática do tempo, não
apenas do tempo que o romance “nos toma”, como já referido, está presente em
numerosos passos, insinuando-se quase como obsessão no decurso da narrativa.
Trata-se, em geral, da discrepância entre o tempo “objectivo” – o do relógio –
e a percepção subjectiva que dele temos, consoante a situação que vivemos, com
a dificuldade de a sua mensuração escapar aos nossos sentidos:
«Tomamos
consciência do espaço através dos nossos sentidos, da visão e do tacto. Muito
bem. Mas que órgão nos permite a percepção do tempo?» (p. 82), «O que
designamos por tédio é, portanto, uma abreviação doentia do tempo decorrente da
monotonia: a uniformidade constante produz a redução atroz e assustadora dos
longos períodos de tempo. Quando um dia se assemelha a todos os outros, todos
os outros se assemelham a esse dia.» (p. 123). «Ninguém disse nada durante uns
dois ou três minutos, o que nos leva a perceber a dimensão que essas ínfimas
unidades podem assumir em certas circunstâncias» (p. 688)
Mas o tempo que o romance
“nos toma”, sendo muito, é também um tempo que tende a aproximar as personagens
– seres de papel – das pessoas que vemos, que conhecemos, com quem falamos e
por quem nutrimos os mais diversos sentimentos. Isto é, A Montanha Mágica,
como acontece com muitos outros grandes romances, transpõe a barreira da ficção
para nos colocar, durante o tempo de leitura, e mesmo além dele, num contacto
quase físico com as suas personagens. Poder-se-ia falar aqui de tempo mítico,
um tempo que retira o leitor da escala ou do enquadramento temporal em que ele
se move no seu dia-a-dia e o põe num outro plano, integrável no conceito de
mitologia degradada (Mircea Eliade).
A descrição das personagens e
dos ambientes obedece sempre ao critério do “rigor e minúcia”: nada escapa ao
escalpelo do narrador, sem provocar enfado, já que a multiplicidade de
pormenores faz do cenário um aparatoso quadro multicolor e contribui fortemente
para a caracterização do espaço físico e social do sanatório em que se
desenrola a acção – o Berghof.
Uma dessas personagens,
Clawdia Chauchat desaparece inexplicavelmente, quando o leitor contava com um
desenvolvimento romântico da sua relação com Hans Castorp. Porquê? Boa
pergunta. Talvez porque, para o narrador (ou para o autor, vá-se lá saber!),
«a
paixão deixa tão pouca margem para o juízo estético como para o moral» (p.
274),
mesmo se
«a
arte é ética na medida em que desperta» (p. 135).
Ora, o tal desenvolvimento
cumpriria, sem dúvida, o desiderato de despertar.
O discurso em que o narrador
assume abertamente o seu estatuto e discorre sobre a sua acção, em diálogo com
o leitor virtual, é outra das características do processo narrativo. A atitude
dialogante do narrador aproxima-o, naturalmente, do leitor, que tende a
sentir-se mais uma personagem, ainda que limitada ao papel de observador e,
eventualmente, juiz ou, pelo menos, crítico.
Acontece que o narrador usa
de fina ironia para fingir que determinada descrição se deve à habilidade de
uma personagem e não dele mesmo:
«Delegámos
no jovem Hans Castorp a função de esboçar uma imagem aproximada deste novo e
inopinado hóspede (Mynheer Peeperkorn) e há que dizer que ele não se
desenvencilhou nada mal dessa tarefa – nós próprios não teríamos feito muito
melhor» (p. 622)
Em outra ocasião, é a
diferente percepção que instâncias narrativas diversas têm do significado de
determinado termo – na ocorrência, um advérbio de tempo:
«Se
quiséssemos localizar Hans Castorp no meio daquela animação, encontrá-lo-íamos
na sala de leitura, justamente na mesma sala em que outrora (este outrora tem
contornos difusos, já que tanto narrador, como herói e leitor não conseguem já
definir o seu grau de distância temporal) […]» (p. 630).
Acontece ainda que o narrador
assume, com aparente humildade, alguma incapacidade:
«Teríamos
sérias dificuldades em explicar por que razão Hans Castorp, que até nutria uma
particular paixão secreta por cataratas, não se lembrara ainda de visitar a
cascata pitoresca situada na floresta do vale de Flüela» (p. 696).
Ou confidencia algo sobre o fim do seu labor
narrativo:
«Também
esta história chegará um dia ao seu termo. Já dura há muito tempo […]» (p.
710).
Ou ainda exprime uma
hipotética opinião do leitor:
«Dir-se-á,
porventura que o narrador exagera nos contornos românticos da sua narrativa
[…]» (p. 713).
Frequentemente, a profundidade, rigor e minúcia com que palavras, personagens, atitudes, comportamentos, paisagens e fenómenos atmosféricos são escalpelizados diluem a narração num banho reflexivo-descritivo que, por assim dizer, secundariza a acção, pelo menos se a entendermos numa acepção excessivamente convencional, de movimento das personagens. As mais das vezes, o que se passa passa-se na dialéctica argumentativa, no combate verbal, na apreciação dos ambientes e dos caracteres, na descrição das personagens e dos ambientes.
Um final infeliz
Uma das personagens da
narrativa, Clawdia Chauchat, que inspira em Castorp uma paixão arrebatada,
desaparece inexplicavelmente, quando o leitor contava com um desenvolvimento
romântico da sua relação com Hans Castorp. Porquê? Boa pergunta. Talvez porque,
para o narrador (ou para o autor, vá-se lá saber!),
«a
paixão deixa tão pouca margem para o juízo estético como para o moral» (p.
274),
mesmo se
«a
arte é ética na medida em que desperta» (p. 135).
Ora, o tal desenvolvimento
cumpriria, sem dúvida, o desiderato de despertar. Todavia, há que reconhecê-lo,
a narrativa chega ao fim com o começo da I Guerra Mundial e Hans Castorp é
incorporado, o que parece deixar “a questão em aberto”. É assim mesmo que o
narrador conclui, referindo-se ao recém-incorporado Hans Castorp:
«Momentos
houve em que da morte e da luxúria carnal viste germinar, no teu reino
premonitório, um sonho de amor. Será que deste festim universal da morte, deste
ardor perverso e febril, que incendeia o céu chuvoso e crepuscular, poderá
também um dia nascer o amor?» (p. 816).
Estávamos no início da I Guerra. Mann faleceu em 1955, aos 80 anos de idade e ao fim de vinte e dois anos de exílio, devido à ascensão e chegada ao poder de Hitler. Conheceu, portanto, a II Guerra Mundial e o seu “festim universal de morte”, que prossegue, nos nossos dias, com designações e geografias diversas, mas não menor perversidade. Para acabar com um voto piedoso, seria tão bom que a grande literatura, de que este romance é um extraordinário exemplo, assim como as artes e as ciências, em geral, ocupassem nos corações e nas mentes do homem o lugar que continua a ocupar o “ardor perverso e febril” da ganância, do egoísmo e do ódio!
Fernando Martins
