MAGNIFICA
HUMANITAS – já a lestes?
Declaração de interesses: li a Encíclica (Paulinas
Editora, Maio de 2026) na qualidade de ateu e marxista, o que explica a atenção
prestada aos aspectos de carácter económico, político e social, com omissão de
referências à doutrina religiosa. A clivagem ontológica fundamental entre
idealismo e materialismo implica a descrença numa dimensão sobrenatural, apanágio
das religiões.
O Papa Leão XIV começou por me causar uma impressão pouco
positiva: por um lado, a sua aparência era bem menos calorosa do que a de
Francisco, mas é sabido que as aparências podem iludir e não se julga um homem
por ter um sorriso mais espontâneo ou menos luminoso; por outro lado, a escolha
do nome do antecessor – significativa da inspiração na Doutrina Social da
Igreja, via-a eu como indicativa da continuidade da admoestação de Leão XIII,
na sua Rerum Novarum, àqueles que preconizavam a conversão da
propriedade particular em propriedade colectiva. Essa conversão, segundo Leão
XIII, «impediria os operários de engrandecerem o seu património e melhorarem a
sua situação.» O “engrandecimento do património” dos operários do final do
século XIX – nada mais, nada menos!... Aliás, para que não restassem dúvidas
quanto à recusa de encarar de frente os antagonismos sociais, Leão XIII,
[…] como alternativa à lógica
da “luta de classes”, propõe formas de colaboração entre os diversos
componentes da sociedade. (Rerum Novarum, citada na Magnifica Humanitas, n.30)
Ou seja, propõe a colaboração de classe, coisa que não é
inspiradora da simpatia dos que, sabendo que a história da humanidade é a
história da luta de classes, querem mudar o mundo, acabando com elas (classes).
Leão XIV continua defendendo a função social da
propriedade privada, mas, como veremos, são tantas as invectivas contra a
concentração do poder nas mãos de uma minoria e é de tal modo recorrente a
condenação de um modo de produção, na sociedade em que vivemos, caracterizado
pela desigualdade, pela injustiça e pela falta de humanidade que,
provavelmente, o que ocorrerá comentar a uma consciência, mesmo a católica
sincera, é que, se calhar, o que está mal é mesmo a propriedade “particular” –
não a do automóvel, do frigorífico e do televisor, mas sim a dos grandes meios
de produção e das
novas formas de propriedade:
patentes, algoritmos, plataformas digitais, infraestruturas tecnológicas e
dados. (n. 67)
Isso poderá “engrandecer o património” de alguns, mas
nunca reconstruir pacífica e duradouramente “os muros de Jerusalém”.
A apresentação da Encíclica é de António Spadaro, da
Companhia de Jesus. Numa excelente síntese do texto papal, o clérigo parte de
uma distinção qualitativa, relativamente à Doutrina Social da Igreja: a Rerum
Novarum tratava da “condição dos trabalhadores em plena industrialização”;
a Magnifica Humanitas “coloca a dignidade da pessoa à frente dos
sobressaltos da era algorítmica” (p. 6).
Explica, a seguir, os significativos contributos da nota
doutrinal dos órgãos administrativos da cúria romana, os chamados dicastérios,
sobre Cultura, Educação e Doutrina da Fé para a redacção da actual Carta
Encíclica: «o documento traçou uma linha filosófica clara entre o que as
máquinas fazem e o que a mente humana é» (p. 7) e «A encíclica introduz com
lucidez, na reflexão da Igreja sobre a IA, a crítica estrutural à concentração
de poder nas mãos de atores privados transnacionais que redefinem as condições
de acesso à vida pública.» (p. 8)
O leitor pouco dado à leitura de encíclicas sofre aqui um
primeiro abalo: bem certo que o que aqui está em análise é o “paradigma
tecnocrático e a IA” (Papa Francisco), mas esta linguagem destoa do registo a
que a Igreja o habituou, pela sua frontalidade, mais comum em outro tipo de
instituições, geralmente mal vistas, e com razão, pelo mainstream
institucional. Claro que os «atores privados transnacionais» não vão gostar
desta «crítica estrutural à concentração de poder» nas suas mãos, quando são
eles que definem e «redefinem as condições de acesso à vida pública», isto é,
os novéis senhores do “paradigma tecnocrático e da IA” não darão de barato que
se coloque «a dignidade da pessoa à frente dos sobressaltos da era algorítmica»
(p. 6), do mesmo modo que os senhores que os precederam e os que se mantêm no
poder não aceitam que se coloque a dignidade dos trabalhadores à frente dos
“sobressaltos” da economia de mercado e do neoliberalismo.
***
Vamos, contudo, ao texto papal, que contém uma Introdução,
cinco capítulos e uma Conclusão, num total de 245 parágrafos numerados.
Começando pelo princípio, o Papa interpela a consciência do leitor:
A MAGNIFICA
HUMANIDADE
criada por Deus encontra-se hoje perante uma escolha decisiva: erguer uma nova
torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos.
Cada geração recebe em herança a tarefa de dar forma ao seu tempo: de fazer
amadurecer a história como um lugar onde a dignidade de cada pessoa seja
salvaguardada, a justiça promovida e a fraternidade possibilitada. (n.1)
Despojado o texto da sua carga religiosa, a escolha que se
nos depara é a da reprodução de uma sociedade caracterizada pela desigualdade e
pela busca do lucro, à custa da dignidade e da miséria da maioria, ou a
construção de uma sociedade solidária e fraterna, onde a pessoa não é
mercadejada nem a sua dignidade sujeita a cotação numa bolsa de valores.
Sendo inquestionável o poder das novas tecnologias,
importa saber quem detém esse poder (n.5), já que o papel do Estado foi
suplantado pela iniciativa privada, «sujeitos privados, frequentemente
transnacionais» e, por isso mesmo, difíceis de «orientar para o bem comum» (n.
5)
Ao lermos isto, é difícil não pensarmos no ar reprovador
dos arautos do liberalismo, sem “neo” ou com “neo”. Onde já se viu um Papa
afrontar assim a liberdade de iniciativa dos cidadãos?! Hayek, se fosse vivo,
não ia gostar nada de ler isto. Nem a IL, nem aquela coisa que já arrebata
centenas de milhar, nem o centrão do consenso neoliberal – todos eles ainda
vivos.
As metáforas da Torre de Babel e das muralhas de Jerusalém
remetem para o antagonismo fundamental entre «a lógica do domínio e a lógica da
responsabilidade partilhada.» (p. 10) São «duas lógicas de poder: concentrá-lo
ou distribuí-lo, homogeneizar ou compor» (p. 10). É que
Existe um direito à
propriedade privada que tem o seu sentido e função própria, mas está sempre
subordinado à destinação universal dos bens. […] Uma vez que “a tradição cristã
nunca reconheceu como absoluto ou intocável o direito à propriedade privada” [palavras
do Papa Francisco na Encíclica Laudato si’], a sua função social não deve
considerar-se uma mera opinião teológica, mas doutrina certa da Igreja, já
presente nas Sagradas Escrituras e nos Padres.» (n. 66)
Como se diz no n.8, após o exílio babilónico e o regresso
a Jerusalém,
a cidade renasce, não graças
à iniciativa de uma única pessoa, mas através da responsabilidade partilhada
por todo o povo: sacerdotes, artesãos, chefes de família, mulheres e jovens.
Reforçando a urgência da partilha e a recusa da
uniformidade, numa alusão, que eu diria clara, àquilo que se chama o pensamento
único, o Papa acrescenta:
Evitemos, portanto, a
“síndrome de Babel”: a idolatria do lucro, que sacrifica os mais fracos; a
uniformidade, que anula as diferenças; a pretensão de uma linguagem única –
mesmo digital – dedicada a traduzir tudo em dados e desempenhos, inclusive o
mistério da pessoa. (n. 10)
De resto, esta condenação da “idolatria do lucro, que
sacrifica os mais fracos” e da “uniformidade, que anula as diferenças” está
sempre presente:
[…] edificar no bem significa
aceitar os limites e a fragilidade da Humanidade sem os considerar um erro a
corrigir [e rejeitar] modelos de bem-estar que “deixam para trás” povos
inteiros. (n. 12)
Para que não restem dúvidas,
as injustiças não dizem
respeito apenas aos comportamentos individuais, mas também às estruturas
económicas e institucionais. (n. 31) A ideia de “justiça social” ajuda a
reconhecer que as injustiças não surgem apenas das escolhas erradas dos
indivíduos, mas também de estruturas, mecanismos e sistemas económicos e
culturais que, de forma quase automática, produzem desigualdades. (n. 79)
Ou seja, não é só o indivíduo que está em causa; é a
estrutura, é a organização, é a instituição. Não está lá escrito, mas o
marxista pode sempre adicionar uns prefixos às tais estruturas:” infra”, a
económica, e “super”, as ideologias, os comportamentos, as instituições. O que
não significa que o Papa seja marxista (excepto, talvez, no linguajar de Trump,
Miley, Ventura e seus congéneres). Para o provar, se necessário fosse, cita Pio
XI que, na Encíclica Quadragesimo Anno,
[…] denuncia os
totalitarismos que espezinham a dignidade da pessoa, sufocam a vida social,
exaltam o Estado, além do seu devido valor, e adotam a categoria
discriminatória da raça (n. 31)
O marxista sabe que a caracterização dos projectos
colectivistas corresponde à visão que muitos têm do projecto comunista,
excepção feita para a raça, própria do nazifascismo. Todavia, interroguemo-nos:
não será contraditório pretender que as “democracias” do tempo de Pio XI e da
sua Encíclica, como as de hoje, não “espezinharam e não espezinham a dignidade
da pessoa”? Elas “não sufocam a vida social” e até a vida familiar, com a sua
idolatria do lucro, que
sacrifica os mais fracos; a uniformidade, que anula as diferenças; [etc.] (n.
10)???
Não foram essas democracias nada colectivistas que se
mancomunaram com Hitler e Mussolini, em Munique, dando claro sinal de que o
inimigo público n.º1 era a URSS e não o III Reich[1]???
O subcapítulo O Magistério recente (n. 37 a 44) é
ilustrativo da preocupação da Igreja em tentar conciliar o que é incompatível:
um sistema assente na liberdade de iniciativa e na busca do lucro máximo com a
dignidade do trabalhador. Se, por um lado, o Magistério social de João Paulo II
ensina que
as várias formas de
precariedade, fragmentação dos percursos profissionais e automatização não
podem ser avaliados apenas em termos de eficiência, mas a partir da dignidade
do trabalhador, do direito a uma remuneração suficiente e da efetiva
possibilidade de participar na vida social (n. 37)
denunciando ainda
os mecanismos económicos,
financeiros e comerciais que, geridos pelos países mais fortes, favorecem
estruturalmente os seus interesses e sufocam as economias mais fracas (n. 38)
e pedindo
um sério julgamento ético, e
não meramente técnico (n. 38)
por outro lado, a Igreja
oferece um discernimento
sobre o colapso do sistema soviético e sobre o afirmar-se da democracia e da
economia de mercado (n. 39)
o que se compreende perfeitamente, dada a
incompatibilidade filosófica entre o idealismo religioso e o materialismo
dialéctico, não sendo de descurar o cuidado que, logo a seguir, se põe no
reconhecimento do
potencial positivo do mercado
e da iniciativa privada, apenas se permanecerem subordinados à lei moral e orientados
pelo princípio de solidariedade, sem sacrificar os mais fracos à lógica do
lucro. (n. 39)
O melhor de dois mundos. Desgraçadamente, a lei da oferta
e da procura ignora o que seja o senso moral…
Mais à frente, já no capítulo IV – Salvaguardar o
humano na transformação – verdade, trabalho, liberdade – o Papa reconhece
que
na “quarta revolução
industrial” […] a inovação é, frequentemente, entendida em função apenas da
redução dos custos e do aumento dos lucros […] com remunerações muito elevadas
para uma minoria altamente especializada e salários sempre mais reduzidos para
uma grande parte da população ativa (n. 151)
E acrescenta
O objetivo de maiores lucros
não pode justificar escolhas que sacrifiquem sistematicamente o emprego, pois a
pessoa humana é um fim e não um meio, e a ordem económica deve manter-se
subordinada à sua dignidade e ao bem comum. (n. 152)
***
No capítulo II – Fundamentos e princípios da doutrina
social da Igreja, o Papa denuncia o perigo da ideologia que distingue os
seres humanos pelo seu grau de eficiência e de desempenho:
O valor da pessoa, no
entanto, não depende do que ela realiza ou produz, pois existem direitos que
pertencem a todos, simplesmente por serem pessoas. (n. 51)
Total consonância com o Papa, ressalvando que a
meritocracia goza de boa reputação na democracia liberal e na economia de
mercado, pelo que as boas intenções papais esbarram numa realidade que
contraria a sua bondade. Aliás, ele próprio o reconhece:
[…] não basta exaltar a
liberdade individual ou a iniciativa privada, se, depois, se aceita que uma
multidão de pessoas continue a viver sem um trabalho digno, sem direitos
tutelados, sem acesso aos bens fundamentais. (n. 58)
No fundo, o pensamento da Igreja debate-se com a
dificuldade de trazer a ovelha da iniciativa privada ao redil da fraternidade,
ou, para usar as metáforas já atrás mencionadas, a impossibilidade de usar as
pedras da Torre de Babel na reconstrução dos muros de Jerusalém. Mais do que
difícil, a tarefa é inviável, mas o Papa não o pode dizer – por razões
religiosas e políticas. Não podendo dizê-lo, o voto piedoso sempre alivia a
consciência:
[…] para um cristão, sair do
pequeno mundo dos próprios interesses e empenhar-se, na medida das suas
possibilidades, pelo bem comum é um valor não negociável, tal como o é a
promoção da vida. (n. 59)
Ai! Leão XIV: mais facilmente se encontrará esse empenho
no bem comum fora da Igreja e da sua Fé. Palavra de marxista, que subscreve o
que segue:
[…] a justiça não diz respeito só a uma
distribuição mais equitativa dos bens ou à correção das injustiças atuais, mas
assume uma dimensão reparadora. Ela visa recompor relações destruídas e
reintegrar quem foi excluído, tendo em conta as feridas deixadas pelas
injustiças: guerras, colonialismo, discriminações raciais ou de género,
violências contra povos inteiros, exploração. (n. 79)
Neste momento, a justiça
social deve também confrontar-se com o ambiente criado pelas tecnologias
digitais […] A justiça exige que se impeça o surgimento de novas formas de
exclusão e privação da liberdade: pessoas e povos a quem é negado ou
dificultado o acesso às tecnologias básicas, comunidades expostas a uma
vigilância invasiva, grupos sociais penalizados por algoritmos opacos que
reproduzem preconceitos e discriminações. (n. 80)
No subcapítulo intitulado “O desenvolvimento humano
integral”, Leão XIV, comentando a Encíclica Populorum progressio, de
Paulo VI, escreve
Por “desenvolvimento humano
integral” entende-se um processo em que o crescimento das pessoas e dos povos
diz respeito a todas as dimensões da existência e abre o futuro também às
gerações vindouras. (n. 82) O desenvolvimento é integral quando não se reduz ao
âmbito económico, mas promove a qualidade da vida nas suas dimensões
espirituais, culturais, morais e relacionais, no respeito pela Casa comum, pela
diversidade dos povos e pelos seus modos de viver. (n. 83)
Como não fazer aqui uma referência ao conhecido texto de
Bento de Jesus Caraça intitulado A Cultura Integral do Indivíduo – problema
central do nosso tempo? Numa época (1933) obviamente bem diferente daquela
em que vivemos, Caraça, como outros pensadores da mesma, ou próxima, área
política, denunciavam, no fundo, perigos algo semelhantes aos que hoje nos
espreitam, de forma cada vez mais ostensiva. Escreve ele:
A civilização de base
capitalista tornou inoperantes os princípios de liberdade individual e de
igualdade, para não falar já no da fraternidade que só por sarcasmo se pode
pretender que esteja incluído hoje entre as ideias dominantes da governação.
Um elemento novo entrou em
cena — a máquina, cujo desenvolvimento permitiu, como diz Ayguesparse[2]
no seu luminoso estudo sobre Maquinismo e Cultura, «uma formidável síntese
entre uma classe — a burguesia, e uma doutrina económica — o capitalismo». E
essa síntese, que teria sido fecunda se a máquina tivesse sido posta, como
devia, ao serviço do homem, tornou-se, pelo contrário, monstruosa, porque
produzia, não a emancipação, mas a escravização económica do trabalhador. O
homem escravo da coisa — eis a grande condenação, no campo moral, do regime
social contemporâneo.
Exceptuando as referências à burguesia e ao capitalismo,
vocábulos demasiadamente conotados com o marxismo, quando surgem muito próximos
um do outro, há muita similitude entre a apreciação que Caraça faz da sociedade
do seu tempo e a apreciação papal da sociedade em que as “tecnologias digitais”
representam uma ameaça potencialmente fatal para a dignidade humana.
A preservação da natureza, dos equilíbrios e recursos
naturais é mais um dos critérios de avaliação do desenvolvimento humano
integral. A
ecologia integral […] passou
a ser uma dimensão imprescindível da Doutrina Social da Igreja. […] não é
verdadeiro progresso o que aumenta o bem-estar de alguns, degradando os
ecossistemas, descarregando os custos nas comunidades mais vulneráveis ou
prejudicando as condições de vida de quem virá depois de nós. (n. 84)
Enfim, este segundo capítulo, conclui-se com uma espécie
de advertência:
A Doutrina social não é
apenas uma palavra dirigida à sociedade: é também um exame de consciência para
a Igreja, casa e escola de comunhão, chamada sempre a averiguar se os
princípios evocados neste capítulo são vividos, em primeiro lugar, dentro de si
mesma. (n. 86)
***
O capítulo III tem por título Técnica e domínio – A
grandeza da pessoa humana perante
as promessas da IA, e enuncia muito claramente a dicotomia clássica do ter
e do ser, ao mesmo tempo que denuncia os perigos da concentração do
poder digital “na mão de poucos”:
Se o desenvolvimento
tecnológico avança sem uma maturação ética e social adequada, pode acontecer
que os meios aumentem sem que a Humanidade cresça na mesma medida: “tem-se
mais”, mas não “se é mais”, e a pessoa corre o risco de ser avaliada sobretudo
com base no desempenho que garante. (n. 94)
No parágrafo seguinte, denuncia-se o controlo, por
“grandes entidades económicas e tecnológicas“, de plataformas, infraestruturas
de dados e capacidade de computação, que deixaram de ser prerrogativa dos
Estados.
Logo a seguir, um alerta para a possível equiparação entre
“inteligência” artificial e humana, com referência às características
distintivas e inultrapassáveis de cada uma delas – nomeadamente, no tocante à
consciência moral e à capacidade de compreensão do que se produz. (n. 99).
Assim, por exemplo,
A imitação artificial da
relação de cuidado e de acompanhamento pode tornar-se perigosa quando se
insinua num contexto pobre de relações e afetos concretos: então, o risco não é
tanto que uma pessoa acredite estar a falar com outra, mas que perca o desejo
de procurar verdadeiramente o outro. (n. 100)
Por outro lado, a dependência da IA de grandes quantidades
de recursos naturais, bem como as emissões nocivas ao ambiente, constituem
outras tantas razões de preocupação para o Papa (n. 101), que não considera a
IA moralmente neutra (n. 104), e assinala, uma vez mais, os riscos de reforço
do poder daqueles que já detêm poder económico e que
podem orientar a informação e
o consumo, condicionar processos democráticos e incidir sobre dinâmicas
económicas em seu próprio benefício, contrariando a justiça social e a
solidariedade entre os povos. (108)
Para quem está atento à realidade dos nossos dias, é
evidente que estes riscos eram já uma realidade antes do surgimento da IA. Sem
embargo, eles assumem, com ela, uma importância muitíssimo potenciada, e isso
implica desmascarar esta nova
assimetria epistémica, económica e política, dando nome aos novos monopólios da
IA (n. 109) [e ainda desarmá-la, o que significa] subtraí-la à lógica da
competição armada, que hoje não é apenas militar, mas também económica e
cognitiva. (n. 110)
Reforçando tudo o que fica para trás, Leão XIV é
categórico na expressão do que faz de uma civilização algo mais do que a soma
de recursos materiais, científicos e tecnológicos disponíveis:
A qualidade de uma
civilização não se mede pelo poder dos seus meios, mas pelo cuidado que sabe oferecer,
pela capacidade de reconhecer o outro enquanto pessoa e não enquanto função.
Uma dimensão importante do nosso ser humano é a capacidade de saber cuidar uns
dos outros. Esta aprende-se e aperfeiçoa-se com a experiência. Ler histórias a
uma criança, fazer companhia a um idoso, tornar acolhedor um espaço, são gestos
que se vivem no ambiente familiar, ajudando-nos a aprender e a interiorizar a
importância do cuidado a nível social e treinando-nos para reconhecer o outro
como pessoa digna de atenção. (n. 114)
***
Mais à frente, no capítulo IV, retoma a reflexão sobre o
acesso de todos ao trabalho, como critério «para avaliar a qualidade humana de
um modelo de desenvolvimento» (n. 154), conforme plasmado na Doutrina Social da
Igreja, e critica o método de aferição do desenvolvimento, assente no conceito
de Produto Interno Bruto (PIB), com dispensa de «aspetos essenciais para o
bem-estar global das pessoas e do ambiente» (n. 159), bem como a
financeirização da economia, dizendo que «a renda do capital corre o risco de
substituir o rendimento do trabalho» (n. 160).
Na verdade, não se trata de um “risco”; a economia de
casino está aí, com as suas bolsas de valores, os seus accionistas, os seus
produtos bancários, numa dança ritmada pelos rumores, pelo sacrossanto mercado
e pela geopolítica.
E, sim, é verdade:
A finança pela finança é
muito diferente da finança pelo desenvolvimento e pela criação e evolução do
trabalho. (n. 160)
E também é verdade que
na era da IA e da robótica,
já não é possível confiar-se apenas à “mão invisível” do mercado: a política
tem a tarefa de orientar as dinâmicas económico-tecnológicas para o bem comum,
promovendo o trabalho digno, a inclusão social e uma distribuição equitativa
dos benefícios da inovação. (n. 163)
Ousemos perguntar se, antes desta era, era boa ideia
confiar-se nessa “mão invisível”, tão querida do liberalismo económico. Não é
por acaso que, no subcapítulo intitulado “Quebrar as correntes das novas formas
de escravatura”, o Papa pinta o funcionamento desta era usando uma paleta de
cores que pouco a distingue das antigas formas de escravatura:
Uma parte significativa do
funcionamento da economia digital assenta no trabalho silencioso de milhões de
seres humanos, empregados em atividades pouco visíveis, mas essenciais:
etiquetagem de dados, moderação de conteúdos – muitas vezes péssimos – e treino
de modelos. Em muitos casos são jovens, maioritariamente mulheres, que
trabalham arduamente por uma remuneração mínima. […] Não basta invocar a
eficiência, nem celebrar os benefícios da inovação, quando resultam de uma
cadeia de exploração que permanece deliberadamente invisível. (n. 173)
E pede perdão, em nome da Igreja, porque
Foi preciso aguardar o século
XIX para se encontrar uma condenação formal, absoluta e universal da
escravatura, em particular com Leão XIII. (n. 176)
Porém, não só a escravatura assumiu novas formas como o
colonialismo do passado se travestiu tão subtilmente que, hoje, passa por
bondade e solidariedade:
Os titulares dos dados de
saúde de populações inteiras, hoje, frequentemente recolhidos sob o pretexto de
ajudar, investigar ou inovar, detêm, na realidade, uma alavanca estrutural em
relação ao futuro: podem moldar as necessidades e os mercados. E podem decidir,
antecipadamente, a quem destinar medicamentos, investimentos e proteções.
[Urge] transformar o conhecimento partilhado em bem comum e não em alavanca de
domínio […] Caso contrário, a era digital não será pós-colonial, mas colonial,
de uma outra forma. (n. 178)
***
No capítulo V, A cultura do poder e a civilização do
amor, Leão XIV debruça-se sobre a problemática da guerra, da sua
normalização e da crescente intervenção da IA nos conflitos da actualidade.
Lamenta que não se verifique hoje o que aconteceu durante a Guerra Fria, quando
apesar da existência de
conflitos graves, permanecia a consciência da necessidade de evitar, a todo o
custo, um novo conflito mundial. (n. 189)
Actualmente, pelo contrário,
[A] cultura do poder penetra
na sociedade, altera relações e comportamentos, expande-se normalizando a
guerra, em busca de um poder militar cada vez maior, aproveitando-se da crise
do multilateralismo e alimentando um falso realismo que repete não existirem
alternativas. […] assistimos a uma verdadeira mudança de paradigma, no discurso
público e nas decisões em matéria de rearmamento, com uma preocupante
reabilitação da guerra como instrumento de política internacional (n. 189)
Claro que «o diálogo, a diplomacia e o perdão» (n. 192)
deveriam ser a prioridade n.1, mas, ai de nós,
Não podemos ignorar os
enormes interesses económicos que estão por trás da guerra. (n. 193)
e nada melhor para isso do que convencer as massas da proximidade
de uma agressão e da necessidade de investir em armamento, desviando os
recursos que deveriam ser usados na saúde, na instrução e nos serviços sociais.
(n. 204) Com efeito,
o problema já não é a paz
perdida como referência no horizonte internacional, mas sim como e quando agir
militarmente, considerando-se irresponsável a não preparação para o confronto.
(n. 205)
Que bem que estas palavras se aplicam a tantos dirigentes
das nossas democracias liberais, tão sábios na paternal tarefa de invocar o
papão, quando eles próprios se empenharam na construção da Torre de Babel,
pouco se importando com a reconstrução dos muros de Jerusalém.
Claro que há que buscar um equilíbrio na condenação dos
actores destes processos; o Papa não vai ao extremo a que chegou Francisco,
quando fez certa declaração inconveniente a propósito de uma “OTAN a ladrar às
portas da Rússia”. Lembrais-vos? Por isso, não deixa de zurzir os autores de
«escândalos que ferem a própria Humanidade»
Quando nos deparamos com
bombardeamentos contra civis; com ataques a hospitais, escolas ou
infraestruturas vitais; com atos de violência que atingem crianças, estamos
perante escândalos que ferem a própria Humanidade (n. 216)
O seu alvo é facilmente identificável, mas convirá pôr a
frase no plural: é demasiado fácil ver nela apenas a Rússia e fechar os olhos
perante o que se passa noutras geografias, quais sejam as do Médio-Oriente.
Há situações em que, para
permanecermos humanos, temos de abandonar as hesitações e tomar posição. (n.
216)
Pessoalmente, eu acrescentaria às hesitações o desinteresse,
o alheamento, a ignorância de que somos “bombardeados” por uma informação
distorcida. Tanto mais que, nesta era da “tecnocracia digital”,
Cada escolha técnica ou
económica transforma-se numa ocasião de discernimento espiritual, uma
oportunidade para verificar se os progressos da IA abrem espaços de justiça e
participação ou se concentram riqueza e poder nas mãos de poucos. (n. 240)
Pelo que Leão XIV
[Convida] a olhar com lucidez
para as cadeias de produção digital, para as condições de trabalho escondidas
por trás dos nossos dispositivos, para os mecanismos que tiram partido da
manipulação e da guerra (n. 240)
e
a adotar uma perspetiva
diferente, a fim de observar o mundo a partir de baixo, com os olhos de quem
sofre, e não com a ótica dos grandes; considerar a História sob o prisma dos
pequenos, e não com o dos poderosos; interpretar os acontecimentos da História
a partir do ponto de vista da viúva, do órfão, do estrangeiro, da criança
ferida, do exilado, do fugitivo»[3]
(n. 244 e penúltimo parágrafo da encíclica)
Recordo a “declaração de interesses” inicial e concluo com
uma declaração de simpatia pelo pensamento do Papa, fazendo votos por que
crentes e não crentes o leiam.
[1] «manifestos lançados pela aviação
britânica em território alemão nos primeiros dias de guerra: «A Alemanha não
estava ameaçada e não era tratada com injustiça. Não se lhe permitiu a ocupação
da Renânia, a realização do Anschluss e recuperar em paz os alemães dos
Sudetas?... Todas as ambições alemãs poderiam ter sido satisfeitas
pacificamente, desde que fossem justas.» Nota final de A Cultura Integral do
Indivíduo, de Bento de Jesus Caraça, 8 de Setembro de 1939
OB001_CulturaIntegralIndividuo_24022025.pdf

