segunda-feira, 7 de setembro de 2026

 


O resto é lembrança, de Albino Matos –

ou: o resgate do passado

Há títulos que são transparentes: Os Maias, A Casa Grande de Romarigães, Os Malaquias… – histórias de famílias; outros identificam o protagonista, pródigo em proezas ou actante em tramas dramáticas ou trágicas: Dom Quixote, As Aventuras de Tom Sawyer, Jean Barois (na tradução portuguesa: O Drama de João Barois)…; outros são enigmáticos, podendo apontar para um pormenor descritivo irrelevante ou ter um carácter simbólico: Uma Abelha na Chuva, Mar Morto, Levantado do Chão; etc., etc., etc.

O título do livro de memórias recentemente publicado por Albino Matos, com a chancela das Edições Vieira da Silva (Junho p.p.), tem como título O Resto é Lembrança. Sendo, à primeira vista, fácil de entender, não deixa de causar alguma estranheza ao leitor propenso a deter-se em minúcias: o resto de quê?

O resto é o que fica, depois de a maior parte ter sido usada, é o que sobra ou sobeja, é o que até, por vezes, se pode desprezar, porque o mais importante já foi usado ou usufruído. Mas, se o resto é a lembrança, qual é a maior, e, presumivelmente, mais importante parte? A vida! Porque a lembrança só existe graças à vida, parafraseando Violeta Parra (sem o encanto melódico do pentassílabo castelhano). E se a lembrança é tão importante, ou não fosse o testemunho de uma vida, porquê chamar-lhe resto?

A epígrafe de Louise Glück, a pp. 7, vem em meu auxílio:

We look at the world once, in childhood.

The rest is memory.

Ou seja: vemos o mundo uma vez, na nossa infância; o resto é … lembrança. É esse o título do livro de Albino Matos. Avancei? Não. Continuo com a desagradável sensação de não dilucidar o significado exacto do título. Felizmente, já não tenho de me sujeitar ao exame do 12.º ano, com ou sem correcção digital. Chumbava. Ou talvez não. Fazia como o chatGPT, ao qual recorri como derradeiro recurso: expunha hipóteses, dissertava.

De facto, a resposta é longa e pormenorizada, reveladora de inteligência e de imaginação, ambas artificiais, mas nem por isso menos convincentes. Transcrevo-a, na íntegra, no fim deste comentário que começa desastradamente, ou não se metesse em trabalhos quem se mete em atalhos. Mas, já agora, antes de sair da capa para, finalmente, entrar no livro, a interpretação “mais profunda” do GPT:

todos nós temos, algures na memória, um “primeiro mundo” que já não podemos voltar a ver como o vimos então.

Cá está. Talvez… Seguramente, mesmo. É este “primeiro mundo” que Albino Matos nos pranta diante dos olhos, com uma verve (facúndia, devia eu dizer, que não há como preterir o vernáculo a favor do estrangeirismo), um afinco e um rigor memorialístico que impressionam o comentador, por acaso da mesma idade e naturalidade do Autor: 1948, Porto.

Pois bem, julgava este comentador ir ler um livro de contos, mas este livro, que conta, efectivamente, histórias – e histórias que podiam ser, em muitos casos, pura ficção narrativa – é um livro de “Memórias de infância”, conforme consta da folha de rosto. E não se imagine que todas essas memórias vêm dos cinco, seis ou sete anos. Algumas, sim, mas a recordação mais antiga do narrador (a personagem que fala em nome de Albino Matos e na qual o Autor investiu conhecimento e capacidade de a esse conhecimento dar forma literária) data dos seus vinte e dois meses de vida. Foi então que a progenitora o “apartou”, isto é, o privou de mamar, segundo relato da própria, que bem pudera ser chamado “depoimento” ou não viesse o “infante” (vernáculo que o A. usa abundantemente) a tornar-se juiz, entre outras profissões do Direito.

Recordações, da mais tenra idade até aos tempos de estudante liceal, não faltam nos cinquenta e cinco capítulos deste livro. Algumas delas tocam-me particularmente, porque coincidem (só em parte, claro) com as minhas. É o caso de “A praia”, que relata a experiência da “primeira temporada de praia. Ali mesmo na Foz, na Praia da Luz, a primeira a contar do Farol, no termo do Porto…” Eu ia mais para a do Molhe, um pouco mais à frente, a caminho do Castelo do Queijo, mas tive uma namoradinha na Rua da Senhora da Luz (seria mesmo este o nome daquela ruazinha estreita e íngreme que desemboca, se a memória não me trai, em frente à praia em questão? Na altura, já eu tinha dezasseis ou dezassete anos. Não sei se o Albino Matos, com a mesma idade, continuou a lá ir, beneficiando dos cuidados da tia concessionária da exploração, ou se só lá voltou “já perto dos trinta anos” (p. 181), mas é provável que tenhamos calcorreado os mesmos sítios. Certo é que não nos banhámos duas vezes nas mesmas águas do mar, que todo o mundo é composto de mudança.

Outra lembrança que temos em comum (a minha, muito limitada), é a de Resende, em cuja cercania passei uns dias em miúdo e pude testemunhar o que era a pobreza extrema de tantas famílias. De uma delas, recordo a mulher que me franqueou a entrada numa espécie de choça, sua morada (ou morada do casal, se é que havia casal) adossada a uma pequena encosta e amanhada com tábuas e chapas. A um canto, num cesto de vime, um bebé esquelético. Vai morrer – diz-me a mulher – não tenho leite para lhe dar. E o miúdo que eu era, imaginando-se protagonista de um salvamento in extremis: Vou-lhe buscar leite em pó.

Não sei já, mas, habituado a tomar leite e sendo talvez difícil obtê-lo naquele local, os meus pais devem ter deixado uma lata do tal leite em pó à família que lhe acolhia o rebento habituado a certos mimos. Foi essa lata que fui levar à mãe do bebé. Em vão. O último suspiro do inocente tinha ocorrido. Sem assistência, sem alimento, sem futuro. Isto nos anos cinquenta, em plena “democracia orgânica”, conforme rezava o discurso oficial. Um tempo de que alguns exaltam a bondade. Por ignorância, ingenuidade, inconsciente masoquismo ou pura má-fé.

Feitos estes parêntesis, pede-se um pouco de contenção e de sistematização. Vejamos se consigo:

O que mais incisivamente impressiona este leitor/comentador são as seguintes características do livro:

a.   a abundância e rigor de pormenores respeitantes a locais, a gentes e formas de vida, ao progresso que vai chegando, à organização político-administrativa do território e aos sentimentos identitários de cada comunidade – o que configura um didactismo histórico e etnográfico relevante;

b.   a apropriação (legítima) pelo narrador do sociolecto da sua comunidade de origem;

c.   a multiplicidade de referências e explicações de carácter lexical.

Tratando-se de “memórias de infância” do Autor, não podia deixar de ser este o protagonista de grande parte das narrativas, mas não o é de todas elas, já que são também muitas aquelas em que parentes próximos, colegas de escola e uma mão cheia de patrícios compõem uma bem recheada galeria de tipos, que vão da Maria Ferreira e Amadeu, ao Zé Pereira, ao Lério, ao Benjamim Madureira e por aí adiante. Ora estas personagens, esculpidas a cinzel afiado (além de memorialista, o A. pode gabar-se de dotes retratistas, ou de escultor, para continuar no registo metafórico do cinzel), vestem roupas da época, falam à moda da terra, levam a vida que era a do tempo, trabalham, divertem-se, dizem larachas, são postas diante de novas realidades trazidas pelo (lento) progresso, reagem à novidade, aprendem, adaptam-se. Em suma: mostram ao leitor como se vivia no interior do país, longe das cidades, em terras do Douro Litoral, distrito de Viseu, no início da segunda metade do século XX.

Quanto à língua, há que ter em conta três aspectos: um, o idiolecto do Autor, a sua capacidade de manejar a língua com a destreza e elegância de um prosador a quem não falta nem a riqueza do código (linguístico, que o civil e o penal não são para aqui chamados), nem o domínio da morfossintaxe e dos tropos; outro, o sociolecto local, próprio da comunidade em que viveu durante a infância e adolescência, que o A. incorpora abundantemente no discurso do próprio narrador, levando o leitor a parar um instante para tentar adivinhar o significado de tal ou tal outro vocábulo ou expressão, sempre que não são explicados, porque acontece serem-no, como, por exemplo, logo no primeiro capítulo, primeira página:

… até ao portão da horta (cancelo, digo, não se dizia portão)

Mas também acontece o contrário

Menos enquanto, a bola escapa ao merouço dos jogadores e vem rasteira … (cap. 19)

O uso da contracção e da corruptela é intensivo:

tudo isto literal e histórico, mamigos, realidade pura … ia buscar à vila e vinha pi-acima a vender (cap. 18)

… o nome era Leixandre, bá-lá-ber se nos entendemos… (cap. 32)

… e lá vou eu empós dela … (cap. 43)

… hora e meia a duas horas, consante, com direito a parar uma vez ou duas a beber um copo na venda … (cap. 46)

… – A ‘bença’ – dizia-lhe eu ao chegar … (cap.50)

mas tem-se alguma dificuldade em distinguir o que é propriamente corruptela daquilo que é herança do português medieval, ele próprio descendente do galego falado na região antes da fundação da nacionalidade, quando se estendia «a Galiza para sul até à linha do rio Vouga, ou mesmo do rio Mondego» (p. 212).

O terceiro aspecto que anuncio mais acima está estreitamente ligado ao anterior: o A. detém-se frequentemente na explicação da origem e do significado do vocabulário usado, o que faz deste livro de memórias um valioso alfobre de carácter linguístico, seguramente muito útil para quem se dedica a este estudo, tanto numa perspectiva sincrónica (o funcionamento da língua em determinada localidade e época), quanto na perspectiva diacrónica (a evolução da língua, particularmente a partir do galego).

A título de exemplo, do léxico do avô do Autor constam

termos do português medieval, que se encontram em Fernão Lopes (cap. 51),

caso de “çarrar” (encostar), “saluços”, “notairo”, “cuitelo.

Enfim, o A. relativiza a questão:

É estranho, mas é assim mesmo, a gente criava-se com duas línguas, ao mesmo tempo, a língua da escola, da igreja, da gente culta, e a língua dos caminhos, do povo, dos pobres, da gente miúda: a língua do padrão, a par da língua de pobre, como aqui entendo designá-la. Na verdade, não serão exactamente duas línguas, mas antes duas normas distintas de um mesmo sistema linguístico, a norma culta, por um lado, e a norma local, por outro; ou talvez melhor, a norma nacional e a norma regional, que aqui chamo língua de pobre.

Quando me refiro à “utilidade” deste livro, estou, obviamente, a pensar em estudos de História da Língua, nos departamentos de Linguística das Universidades.

Três apontamentos rápidos, para terminar:

1.   É notória a identificação solidária do A. com a sua comunidade de origem e o seu desgosto pela inexistente lembrança (voltamos ao título!) desses tempos, gentes  e costumes:

é uma pena que tal mundo vá ficar para sempre no desconhecimento dos viventes, ignorado pela história, desconhecido pela arte, desprezado pela literatura. Como se nunca tivesse existido.

Mas existiu… E mexeu com muita gente. E essa não era uma gente qualquer, era gente lá para a frente, para o dizer como diria o Martigueiro. Gente de grande valor, que não conhecia medo ou desânimo, que fez das fraquezas forças … (cap. 38)

2.   Igualmente assinalável a sensibilidade ao sofrimento dos mais fracos, expostos ao rigor da lei:

Lei havia, nesse tempo, previdência é que não; justiça havia, para defender o sistema e a propriedade, segurança social vou ali e já venho. (cap. 21)

3.   Enfim, um “currículo” religioso que não me surpreende, como não me surpreendem, aliás, as anteriores observações, tendo em conta o que de Albino Matos conheço, através de certa rede social:

Tal currículo [catequese, no capítulo discente e no docente] não sei se teve outra virtude, mas deu-me ao menos alguma familiaridade com a doutrina bíblica, em particular o Novo Testamento, com destaque para os Evangelhos; útil em algumas discussões que teria depois com certos fariseus que viria a encontrar pela vida fora, mas nada mais do que isso. (cap. 54)

Este é um livro que me vai ficar na lembrança.

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Da IA:

Os versos de Louise Glück — “We look at the world once, in childhood. The rest is memory.” — podem ser entendidos como uma reflexão muito profunda sobre a infância, a perceção e a memória.

Uma tradução possível seria:

“Olhamos para o mundo uma vez, na infância. O resto é memória.”

O que significa “olhamos para o mundo uma vez”?

Glück parece dizer que a infância é o momento em que vemos o mundo verdadeiramente pela primeira vez. Quando somos crianças, tudo é novo: uma árvore, uma casa, a chuva, um animal, uma viagem, o rosto dos pais, o medo, a alegria.

Não temos ainda uma história pessoal suficientemente longa para comparar aquilo que vemos com experiências anteriores. Por isso, o mundo apresenta-se como novidade absoluta.

Um adulto pode olhar para uma árvore e simplesmente reconhecer: é uma árvore. Uma criança pode olhar para aquela mesma árvore como algo misterioso, enorme, quase mágico.

“The rest is memory”

A segunda frase é mais melancólica.

Depois da infância, já não vemos o mundo pela primeira vez. Passamos a olhar para as coisas através daquilo que já vivemos.

Uma casa deixa de ser simplesmente uma casa: lembra-nos outra casa.
Uma determinada música traz uma época da nossa vida.
Um cheiro pode fazer regressar alguém.
Um lugar pode fazer-nos pensar em quem éramos quando estivemos lá antes.

Ou seja, a experiência presente começa a ser filtrada pelo passado.

E há aqui uma ideia ainda mais radical: talvez aquilo a que chamamos “ver o mundo” seja, em grande parte, recordar o mundo.

Há também uma dimensão de perda

A frase é bonita, mas não é propriamente otimista. Há nela uma espécie de luto pela infância.

Não podemos voltar àquele primeiro olhar.

Podemos voltar ao mesmo jardim, à mesma casa, à mesma praia, mas já não somos a criança que os viu pela primeira vez. Quando regressamos, não encontramos exatamente o lugar original; encontramos o lugar misturado com a nossa memória dele.

É como se Glück dissesse:

A infância acontece uma única vez. Depois passamos a viver, em certa medida, à sombra daquilo que vimos quando éramos crianças.

E isso ajuda a explicar uma característica muito forte da poesia de Glück: a tentativa de regressar através da linguagem àquilo que já não pode ser recuperado diretamente.

Uma interpretação ainda mais profunda

Há uma ambiguidade interessante no verbo “look”.

Ela não diz “We experience the world once” (“experimentamos o mundo uma vez”). Diz “We look at the world once”olhamos para o mundo.

Isso torna a frase quase filosófica: há um primeiro olhar, inocente e original, e depois há todos os outros olhares, que já carregam conhecimento, experiência, perda e memória.

Por isso, os versos podem ser lidos como uma definição muito condensada da passagem da infância para a idade adulta:

infância → descoberta → experiência → memória.

E talvez seja precisamente por isso que a frase nos toca tanto: todos nós temos, algures na memória, um “primeiro mundo” que já não podemos voltar a ver como o vimos então.

 


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

 



MAGNIFICA HUMANITAS – já a lestes?

 

Declaração de interesses: li a Encíclica (Paulinas Editora, Maio de 2026) na qualidade de ateu e marxista, o que explica a atenção prestada aos aspectos de carácter económico, político e social, com omissão de referências à doutrina religiosa. A clivagem ontológica fundamental entre idealismo e materialismo implica a descrença numa dimensão sobrenatural, apanágio das religiões.

O Papa Leão XIV começou por me causar uma impressão pouco positiva: por um lado, a sua aparência era bem menos calorosa do que a de Francisco, mas é sabido que as aparências podem iludir e não se julga um homem por ter um sorriso mais espontâneo ou menos luminoso; por outro lado, a escolha do nome do antecessor – significativa da inspiração na Doutrina Social da Igreja, via-a eu como indicativa da continuidade da admoestação de Leão XIII, na sua Rerum Novarum, àqueles que preconizavam a conversão da propriedade particular em propriedade colectiva. Essa conversão, segundo Leão XIII, «impediria os operários de engrandecerem o seu património e melhorarem a sua situação.» O “engrandecimento do património” dos operários do final do século XIX – nada mais, nada menos!... Aliás, para que não restassem dúvidas quanto à recusa de encarar de frente os antagonismos sociais, Leão XIII,

[…] como alternativa à lógica da “luta de classes”, propõe formas de colaboração entre os diversos componentes da sociedade. (Rerum Novarum, citada na Magnifica Humanitas, n.30)

Ou seja, propõe a colaboração de classe, coisa que não é inspiradora da simpatia dos que, sabendo que a história da humanidade é a história da luta de classes, querem mudar o mundo, acabando com elas (classes).

Leão XIV continua defendendo a função social da propriedade privada, mas, como veremos, são tantas as invectivas contra a concentração do poder nas mãos de uma minoria e é de tal modo recorrente a condenação de um modo de produção, na sociedade em que vivemos, caracterizado pela desigualdade, pela injustiça e pela falta de humanidade que, provavelmente, o que ocorrerá comentar a uma consciência, mesmo a católica sincera, é que, se calhar, o que está mal é mesmo a propriedade “particular” – não a do automóvel, do frigorífico e do televisor, mas sim a dos grandes meios de produção e das

novas formas de propriedade: patentes, algoritmos, plataformas digitais, infraestruturas tecnológicas e dados. (n. 67)

Isso poderá “engrandecer o património” de alguns, mas nunca reconstruir pacífica e duradouramente “os muros de Jerusalém”.

A apresentação da Encíclica é de António Spadaro, da Companhia de Jesus. Numa excelente síntese do texto papal, o clérigo parte de uma distinção qualitativa, relativamente à Doutrina Social da Igreja: a Rerum Novarum tratava da “condição dos trabalhadores em plena industrialização”; a Magnifica Humanitas “coloca a dignidade da pessoa à frente dos sobressaltos da era algorítmica” (p. 6).

Explica, a seguir, os significativos contributos da nota doutrinal dos órgãos administrativos da cúria romana, os chamados dicastérios, sobre Cultura, Educação e Doutrina da Fé para a redacção da actual Carta Encíclica: «o documento traçou uma linha filosófica clara entre o que as máquinas fazem e o que a mente humana é» (p. 7) e «A encíclica introduz com lucidez, na reflexão da Igreja sobre a IA, a crítica estrutural à concentração de poder nas mãos de atores privados transnacionais que redefinem as condições de acesso à vida pública.» (p. 8)

O leitor pouco dado à leitura de encíclicas sofre aqui um primeiro abalo: bem certo que o que aqui está em análise é o “paradigma tecnocrático e a IA” (Papa Francisco), mas esta linguagem destoa do registo a que a Igreja o habituou, pela sua frontalidade, mais comum em outro tipo de instituições, geralmente mal vistas, e com razão, pelo mainstream institucional. Claro que os «atores privados transnacionais» não vão gostar desta «crítica estrutural à concentração de poder» nas suas mãos, quando são eles que definem e «redefinem as condições de acesso à vida pública», isto é, os novéis senhores do “paradigma tecnocrático e da IA” não darão de barato que se coloque «a dignidade da pessoa à frente dos sobressaltos da era algorítmica» (p. 6), do mesmo modo que os senhores que os precederam e os que se mantêm no poder não aceitam que se coloque a dignidade dos trabalhadores à frente dos “sobressaltos” da economia de mercado e do neoliberalismo.

***

Vamos, contudo, ao texto papal, que contém uma Introdução, cinco capítulos e uma Conclusão, num total de 245 parágrafos numerados. Começando pelo princípio, o Papa interpela a consciência do leitor:

A MAGNIFICA HUMANIDADE criada por Deus encontra-se hoje perante uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos. Cada geração recebe em herança a tarefa de dar forma ao seu tempo: de fazer amadurecer a história como um lugar onde a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça promovida e a fraternidade possibilitada. (n.1)

Despojado o texto da sua carga religiosa, a escolha que se nos depara é a da reprodução de uma sociedade caracterizada pela desigualdade e pela busca do lucro, à custa da dignidade e da miséria da maioria, ou a construção de uma sociedade solidária e fraterna, onde a pessoa não é mercadejada nem a sua dignidade sujeita a cotação numa bolsa de valores.

Sendo inquestionável o poder das novas tecnologias, importa saber quem detém esse poder (n.5), já que o papel do Estado foi suplantado pela iniciativa privada, «sujeitos privados, frequentemente transnacionais» e, por isso mesmo, difíceis de «orientar para o bem comum» (n. 5)

Ao lermos isto, é difícil não pensarmos no ar reprovador dos arautos do liberalismo, sem “neo” ou com “neo”. Onde já se viu um Papa afrontar assim a liberdade de iniciativa dos cidadãos?! Hayek, se fosse vivo, não ia gostar nada de ler isto. Nem a IL, nem aquela coisa que já arrebata centenas de milhar, nem o centrão do consenso neoliberal – todos eles ainda vivos.

As metáforas da Torre de Babel e das muralhas de Jerusalém remetem para o antagonismo fundamental entre «a lógica do domínio e a lógica da responsabilidade partilhada.» (p. 10) São «duas lógicas de poder: concentrá-lo ou distribuí-lo, homogeneizar ou compor» (p. 10). É que

Existe um direito à propriedade privada que tem o seu sentido e função própria, mas está sempre subordinado à destinação universal dos bens. […] Uma vez que “a tradição cristã nunca reconheceu como absoluto ou intocável o direito à propriedade privada” [palavras do Papa Francisco na Encíclica Laudato si’], a sua função social não deve considerar-se uma mera opinião teológica, mas doutrina certa da Igreja, já presente nas Sagradas Escrituras e nos Padres.» (n. 66)

Como se diz no n.8, após o exílio babilónico e o regresso a Jerusalém,

a cidade renasce, não graças à iniciativa de uma única pessoa, mas através da responsabilidade partilhada por todo o povo: sacerdotes, artesãos, chefes de família, mulheres e jovens.

Reforçando a urgência da partilha e a recusa da uniformidade, numa alusão, que eu diria clara, àquilo que se chama o pensamento único, o Papa acrescenta:

Evitemos, portanto, a “síndrome de Babel”: a idolatria do lucro, que sacrifica os mais fracos; a uniformidade, que anula as diferenças; a pretensão de uma linguagem única – mesmo digital – dedicada a traduzir tudo em dados e desempenhos, inclusive o mistério da pessoa. (n. 10)

De resto, esta condenação da “idolatria do lucro, que sacrifica os mais fracos” e da “uniformidade, que anula as diferenças” está sempre presente:

[…] edificar no bem significa aceitar os limites e a fragilidade da Humanidade sem os considerar um erro a corrigir [e rejeitar] modelos de bem-estar que “deixam para trás” povos inteiros. (n. 12)

Para que não restem dúvidas,

as injustiças não dizem respeito apenas aos comportamentos individuais, mas também às estruturas económicas e institucionais. (n. 31) A ideia de “justiça social” ajuda a reconhecer que as injustiças não surgem apenas das escolhas erradas dos indivíduos, mas também de estruturas, mecanismos e sistemas económicos e culturais que, de forma quase automática, produzem desigualdades. (n. 79)

Ou seja, não é só o indivíduo que está em causa; é a estrutura, é a organização, é a instituição. Não está lá escrito, mas o marxista pode sempre adicionar uns prefixos às tais estruturas:” infra”, a económica, e “super”, as ideologias, os comportamentos, as instituições. O que não significa que o Papa seja marxista (excepto, talvez, no linguajar de Trump, Miley, Ventura e seus congéneres). Para o provar, se necessário fosse, cita Pio XI que, na Encíclica Quadragesimo Anno,

[…] denuncia os totalitarismos que espezinham a dignidade da pessoa, sufocam a vida social, exaltam o Estado, além do seu devido valor, e adotam a categoria discriminatória da raça (n. 31)

O marxista sabe que a caracterização dos projectos colectivistas corresponde à visão que muitos têm do projecto comunista, excepção feita para a raça, própria do nazifascismo. Todavia, interroguemo-nos: não será contraditório pretender que as “democracias” do tempo de Pio XI e da sua Encíclica, como as de hoje, não “espezinharam e não espezinham a dignidade da pessoa”? Elas “não sufocam a vida social” e até a vida familiar, com a sua

idolatria do lucro, que sacrifica os mais fracos; a uniformidade, que anula as diferenças; [etc.] (n. 10)???

Não foram essas democracias nada colectivistas que se mancomunaram com Hitler e Mussolini, em Munique, dando claro sinal de que o inimigo público n.º1 era a URSS e não o III Reich[1]???

O subcapítulo O Magistério recente (n. 37 a 44) é ilustrativo da preocupação da Igreja em tentar conciliar o que é incompatível: um sistema assente na liberdade de iniciativa e na busca do lucro máximo com a dignidade do trabalhador. Se, por um lado, o Magistério social de João Paulo II ensina que

as várias formas de precariedade, fragmentação dos percursos profissionais e automatização não podem ser avaliados apenas em termos de eficiência, mas a partir da dignidade do trabalhador, do direito a uma remuneração suficiente e da efetiva possibilidade de participar na vida social (n. 37)

denunciando ainda

os mecanismos económicos, financeiros e comerciais que, geridos pelos países mais fortes, favorecem estruturalmente os seus interesses e sufocam as economias mais fracas (n. 38)

e pedindo

um sério julgamento ético, e não meramente técnico (n. 38)

por outro lado, a Igreja

oferece um discernimento sobre o colapso do sistema soviético e sobre o afirmar-se da democracia e da economia de mercado (n. 39)

o que se compreende perfeitamente, dada a incompatibilidade filosófica entre o idealismo religioso e o materialismo dialéctico, não sendo de descurar o cuidado que, logo a seguir, se põe no reconhecimento do

potencial positivo do mercado e da iniciativa privada, apenas se permanecerem subordinados à lei moral e orientados pelo princípio de solidariedade, sem sacrificar os mais fracos à lógica do lucro. (n. 39)

O melhor de dois mundos. Desgraçadamente, a lei da oferta e da procura ignora o que seja o senso moral…

Mais à frente, já no capítulo IV – Salvaguardar o humano na transformação – verdade, trabalho, liberdade – o Papa reconhece que

na “quarta revolução industrial” […] a inovação é, frequentemente, entendida em função apenas da redução dos custos e do aumento dos lucros […] com remunerações muito elevadas para uma minoria altamente especializada e salários sempre mais reduzidos para uma grande parte da população ativa (n. 151)

E acrescenta

O objetivo de maiores lucros não pode justificar escolhas que sacrifiquem sistematicamente o emprego, pois a pessoa humana é um fim e não um meio, e a ordem económica deve manter-se subordinada à sua dignidade e ao bem comum. (n. 152)

***

No capítulo II – Fundamentos e princípios da doutrina social da Igreja, o Papa denuncia o perigo da ideologia que distingue os seres humanos pelo seu grau de eficiência e de desempenho:

O valor da pessoa, no entanto, não depende do que ela realiza ou produz, pois existem direitos que pertencem a todos, simplesmente por serem pessoas. (n. 51)

Total consonância com o Papa, ressalvando que a meritocracia goza de boa reputação na democracia liberal e na economia de mercado, pelo que as boas intenções papais esbarram numa realidade que contraria a sua bondade. Aliás, ele próprio o reconhece:

[…] não basta exaltar a liberdade individual ou a iniciativa privada, se, depois, se aceita que uma multidão de pessoas continue a viver sem um trabalho digno, sem direitos tutelados, sem acesso aos bens fundamentais. (n. 58)

No fundo, o pensamento da Igreja debate-se com a dificuldade de trazer a ovelha da iniciativa privada ao redil da fraternidade, ou, para usar as metáforas já atrás mencionadas, a impossibilidade de usar as pedras da Torre de Babel na reconstrução dos muros de Jerusalém. Mais do que difícil, a tarefa é inviável, mas o Papa não o pode dizer – por razões religiosas e políticas. Não podendo dizê-lo, o voto piedoso sempre alivia a consciência:

[…] para um cristão, sair do pequeno mundo dos próprios interesses e empenhar-se, na medida das suas possibilidades, pelo bem comum é um valor não negociável, tal como o é a promoção da vida. (n. 59)

Ai! Leão XIV: mais facilmente se encontrará esse empenho no bem comum fora da Igreja e da sua Fé. Palavra de marxista, que subscreve o que segue:

 […] a justiça não diz respeito só a uma distribuição mais equitativa dos bens ou à correção das injustiças atuais, mas assume uma dimensão reparadora. Ela visa recompor relações destruídas e reintegrar quem foi excluído, tendo em conta as feridas deixadas pelas injustiças: guerras, colonialismo, discriminações raciais ou de género, violências contra povos inteiros, exploração. (n. 79)

Neste momento, a justiça social deve também confrontar-se com o ambiente criado pelas tecnologias digitais […] A justiça exige que se impeça o surgimento de novas formas de exclusão e privação da liberdade: pessoas e povos a quem é negado ou dificultado o acesso às tecnologias básicas, comunidades expostas a uma vigilância invasiva, grupos sociais penalizados por algoritmos opacos que reproduzem preconceitos e discriminações. (n. 80)

No subcapítulo intitulado “O desenvolvimento humano integral”, Leão XIV, comentando a Encíclica Populorum progressio, de Paulo VI, escreve

Por “desenvolvimento humano integral” entende-se um processo em que o crescimento das pessoas e dos povos diz respeito a todas as dimensões da existência e abre o futuro também às gerações vindouras. (n. 82) O desenvolvimento é integral quando não se reduz ao âmbito económico, mas promove a qualidade da vida nas suas dimensões espirituais, culturais, morais e relacionais, no respeito pela Casa comum, pela diversidade dos povos e pelos seus modos de viver. (n. 83)

Como não fazer aqui uma referência ao conhecido texto de Bento de Jesus Caraça intitulado A Cultura Integral do Indivíduo – problema central do nosso tempo? Numa época (1933) obviamente bem diferente daquela em que vivemos, Caraça, como outros pensadores da mesma, ou próxima, área política, denunciavam, no fundo, perigos algo semelhantes aos que hoje nos espreitam, de forma cada vez mais ostensiva. Escreve ele:

A civilização de base capitalista tornou inoperantes os princípios de liberdade individual e de igualdade, para não falar já no da fraternidade que só por sarcasmo se pode pretender que esteja incluído hoje entre as ideias dominantes da governação.

Um elemento novo entrou em cena — a máquina, cujo desenvolvimento permitiu, como diz Ayguesparse[2] no seu luminoso estudo sobre Maquinismo e Cultura, «uma formidável síntese entre uma classe — a burguesia, e uma doutrina económica — o capitalismo». E essa síntese, que teria sido fecunda se a máquina tivesse sido posta, como devia, ao serviço do homem, tornou-se, pelo contrário, monstruosa, porque produzia, não a emancipação, mas a escravização económica do trabalhador. O homem escravo da coisa — eis a grande condenação, no campo moral, do regime social contemporâneo.

Exceptuando as referências à burguesia e ao capitalismo, vocábulos demasiadamente conotados com o marxismo, quando surgem muito próximos um do outro, há muita similitude entre a apreciação que Caraça faz da sociedade do seu tempo e a apreciação papal da sociedade em que as “tecnologias digitais” representam uma ameaça potencialmente fatal para a dignidade humana.

 

A preservação da natureza, dos equilíbrios e recursos naturais é mais um dos critérios de avaliação do desenvolvimento humano integral. A

ecologia integral […] passou a ser uma dimensão imprescindível da Doutrina Social da Igreja. […] não é verdadeiro progresso o que aumenta o bem-estar de alguns, degradando os ecossistemas, descarregando os custos nas comunidades mais vulneráveis ou prejudicando as condições de vida de quem virá depois de nós. (n. 84)

Enfim, este segundo capítulo, conclui-se com uma espécie de advertência:

A Doutrina social não é apenas uma palavra dirigida à sociedade: é também um exame de consciência para a Igreja, casa e escola de comunhão, chamada sempre a averiguar se os princípios evocados neste capítulo são vividos, em primeiro lugar, dentro de si mesma. (n. 86)

***

O capítulo III tem por título Técnica e domínio – A grandeza da        pessoa humana perante as promessas da IA, e enuncia muito claramente a dicotomia clássica do ter e do ser, ao mesmo tempo que denuncia os perigos da concentração do poder digital “na mão de poucos”:

Se o desenvolvimento tecnológico avança sem uma maturação ética e social adequada, pode acontecer que os meios aumentem sem que a Humanidade cresça na mesma medida: “tem-se mais”, mas não “se é mais”, e a pessoa corre o risco de ser avaliada sobretudo com base no desempenho que garante. (n. 94)

No parágrafo seguinte, denuncia-se o controlo, por “grandes entidades económicas e tecnológicas“, de plataformas, infraestruturas de dados e capacidade de computação, que deixaram de ser prerrogativa dos Estados.

Logo a seguir, um alerta para a possível equiparação entre “inteligência” artificial e humana, com referência às características distintivas e inultrapassáveis de cada uma delas – nomeadamente, no tocante à consciência moral e à capacidade de compreensão do que se produz. (n. 99). Assim, por exemplo,

A imitação artificial da relação de cuidado e de acompanhamento pode tornar-se perigosa quando se insinua num contexto pobre de relações e afetos concretos: então, o risco não é tanto que uma pessoa acredite estar a falar com outra, mas que perca o desejo de procurar verdadeiramente o outro. (n. 100)

Por outro lado, a dependência da IA de grandes quantidades de recursos naturais, bem como as emissões nocivas ao ambiente, constituem outras tantas razões de preocupação para o Papa (n. 101), que não considera a IA moralmente neutra (n. 104), e assinala, uma vez mais, os riscos de reforço do poder daqueles que já detêm poder económico e que

podem orientar a informação e o consumo, condicionar processos democráticos e incidir sobre dinâmicas económicas em seu próprio benefício, contrariando a justiça social e a solidariedade entre os povos. (108)

Para quem está atento à realidade dos nossos dias, é evidente que estes riscos eram já uma realidade antes do surgimento da IA. Sem embargo, eles assumem, com ela, uma importância muitíssimo potenciada, e isso

implica desmascarar esta nova assimetria epistémica, económica e política, dando nome aos novos monopólios da IA (n. 109) [e ainda desarmá-la, o que significa] subtraí-la à lógica da competição armada, que hoje não é apenas militar, mas também económica e cognitiva. (n. 110)

Reforçando tudo o que fica para trás, Leão XIV é categórico na expressão do que faz de uma civilização algo mais do que a soma de recursos materiais, científicos e tecnológicos disponíveis:

A qualidade de uma civilização não se mede pelo poder dos seus meios, mas pelo cuidado que sabe oferecer, pela capacidade de reconhecer o outro enquanto pessoa e não enquanto função. Uma dimensão importante do nosso ser humano é a capacidade de saber cuidar uns dos outros. Esta aprende-se e aperfeiçoa-se com a experiência. Ler histórias a uma criança, fazer companhia a um idoso, tornar acolhedor um espaço, são gestos que se vivem no ambiente familiar, ajudando-nos a aprender e a interiorizar a importância do cuidado a nível social e treinando-nos para reconhecer o outro como pessoa digna de atenção. (n. 114)

***

Mais à frente, no capítulo IV, retoma a reflexão sobre o acesso de todos ao trabalho, como critério «para avaliar a qualidade humana de um modelo de desenvolvimento» (n. 154), conforme plasmado na Doutrina Social da Igreja, e critica o método de aferição do desenvolvimento, assente no conceito de Produto Interno Bruto (PIB), com dispensa de «aspetos essenciais para o bem-estar global das pessoas e do ambiente» (n. 159), bem como a financeirização da economia, dizendo que «a renda do capital corre o risco de substituir o rendimento do trabalho» (n. 160).

Na verdade, não se trata de um “risco”; a economia de casino está aí, com as suas bolsas de valores, os seus accionistas, os seus produtos bancários, numa dança ritmada pelos rumores, pelo sacrossanto mercado e pela geopolítica.

E, sim, é verdade:

A finança pela finança é muito diferente da finança pelo desenvolvimento e pela criação e evolução do trabalho. (n. 160)

E também é verdade que

na era da IA e da robótica, já não é possível confiar-se apenas à “mão invisível” do mercado: a política tem a tarefa de orientar as dinâmicas económico-tecnológicas para o bem comum, promovendo o trabalho digno, a inclusão social e uma distribuição equitativa dos benefícios da inovação. (n. 163)

Ousemos perguntar se, antes desta era, era boa ideia confiar-se nessa “mão invisível”, tão querida do liberalismo económico. Não é por acaso que, no subcapítulo intitulado “Quebrar as correntes das novas formas de escravatura”, o Papa pinta o funcionamento desta era usando uma paleta de cores que pouco a distingue das antigas formas de escravatura:

Uma parte significativa do funcionamento da economia digital assenta no trabalho silencioso de milhões de seres humanos, empregados em atividades pouco visíveis, mas essenciais: etiquetagem de dados, moderação de conteúdos – muitas vezes péssimos – e treino de modelos. Em muitos casos são jovens, maioritariamente mulheres, que trabalham arduamente por uma remuneração mínima. […] Não basta invocar a eficiência, nem celebrar os benefícios da inovação, quando resultam de uma cadeia de exploração que permanece deliberadamente invisível. (n. 173)

E pede perdão, em nome da Igreja, porque

Foi preciso aguardar o século XIX para se encontrar uma condenação formal, absoluta e universal da escravatura, em particular com Leão XIII. (n. 176)

Porém, não só a escravatura assumiu novas formas como o colonialismo do passado se travestiu tão subtilmente que, hoje, passa por bondade e solidariedade:

Os titulares dos dados de saúde de populações inteiras, hoje, frequentemente recolhidos sob o pretexto de ajudar, investigar ou inovar, detêm, na realidade, uma alavanca estrutural em relação ao futuro: podem moldar as necessidades e os mercados. E podem decidir, antecipadamente, a quem destinar medicamentos, investimentos e proteções. [Urge] transformar o conhecimento partilhado em bem comum e não em alavanca de domínio […] Caso contrário, a era digital não será pós-colonial, mas colonial, de uma outra forma. (n. 178)

***

No capítulo V, A cultura do poder e a civilização do amor, Leão XIV debruça-se sobre a problemática da guerra, da sua normalização e da crescente intervenção da IA nos conflitos da actualidade. Lamenta que não se verifique hoje o que aconteceu durante a Guerra Fria, quando

apesar da existência de conflitos graves, permanecia a consciência da necessidade de evitar, a todo o custo, um novo conflito mundial. (n. 189)

Actualmente, pelo contrário,

[A] cultura do poder penetra na sociedade, altera relações e comportamentos, expande-se normalizando a guerra, em busca de um poder militar cada vez maior, aproveitando-se da crise do multilateralismo e alimentando um falso realismo que repete não existirem alternativas. […] assistimos a uma verdadeira mudança de paradigma, no discurso público e nas decisões em matéria de rearmamento, com uma preocupante reabilitação da guerra como instrumento de política internacional (n. 189)

Claro que «o diálogo, a diplomacia e o perdão» (n. 192) deveriam ser a prioridade n.1, mas, ai de nós,

Não podemos ignorar os enormes interesses económicos que estão por trás da guerra. (n. 193)

e nada melhor para isso do que convencer as massas da proximidade de uma agressão e da necessidade de investir em armamento, desviando os recursos que deveriam ser usados na saúde, na instrução e nos serviços sociais. (n. 204) Com efeito,

o problema já não é a paz perdida como referência no horizonte internacional, mas sim como e quando agir militarmente, considerando-se irresponsável a não preparação para o confronto. (n. 205)

Que bem que estas palavras se aplicam a tantos dirigentes das nossas democracias liberais, tão sábios na paternal tarefa de invocar o papão, quando eles próprios se empenharam na construção da Torre de Babel, pouco se importando com a reconstrução dos muros de Jerusalém.

Claro que há que buscar um equilíbrio na condenação dos actores destes processos; o Papa não vai ao extremo a que chegou Francisco, quando fez certa declaração inconveniente a propósito de uma “OTAN a ladrar às portas da Rússia”. Lembrais-vos? Por isso, não deixa de zurzir os autores de «escândalos que ferem a própria Humanidade»

Quando nos deparamos com bombardeamentos contra civis; com ataques a hospitais, escolas ou infraestruturas vitais; com atos de violência que atingem crianças, estamos perante escândalos que ferem a própria Humanidade (n. 216)

O seu alvo é facilmente identificável, mas convirá pôr a frase no plural: é demasiado fácil ver nela apenas a Rússia e fechar os olhos perante o que se passa noutras geografias, quais sejam as do Médio-Oriente.

Há situações em que, para permanecermos humanos, temos de abandonar as hesitações e tomar posição. (n. 216)

Pessoalmente, eu acrescentaria às hesitações o desinteresse, o alheamento, a ignorância de que somos “bombardeados” por uma informação distorcida. Tanto mais que, nesta era da “tecnocracia digital”,

Cada escolha técnica ou económica transforma-se numa ocasião de discernimento espiritual, uma oportunidade para verificar se os progressos da IA abrem espaços de justiça e participação ou se concentram riqueza e poder nas mãos de poucos. (n. 240)

Pelo que Leão XIV

[Convida] a olhar com lucidez para as cadeias de produção digital, para as condições de trabalho escondidas por trás dos nossos dispositivos, para os mecanismos que tiram partido da manipulação e da guerra (n. 240)

e

a adotar uma perspetiva diferente, a fim de observar o mundo a partir de baixo, com os olhos de quem sofre, e não com a ótica dos grandes; considerar a História sob o prisma dos pequenos, e não com o dos poderosos; interpretar os acontecimentos da História a partir do ponto de vista da viúva, do órfão, do estrangeiro, da criança ferida, do exilado, do fugitivo»[3] (n. 244 e penúltimo parágrafo da encíclica)

Recordo a “declaração de interesses” inicial e concluo com uma declaração de simpatia pelo pensamento do Papa, fazendo votos por que crentes e não crentes o leiam.

 

 

 



[1] «manifestos lançados pela aviação britânica em território alemão nos primeiros dias de guerra: «A Alemanha não estava ameaçada e não era tratada com injustiça. Não se lhe permitiu a ocupação da Renânia, a realização do Anschluss e recuperar em paz os alemães dos Sudetas?... Todas as ambições alemãs poderiam ter sido satisfeitas pacificamente, desde que fossem justas.» Nota final de A Cultura Integral do Indivíduo, de Bento de Jesus Caraça, 8 de Setembro de 1939

 [2] Albert Ayguesparse (1900-1996), pseudónimo de Albert Jean Clerck. Autor de “Magia do capitalismo” (1933), em que denuncia um sistema económico dominado pela arbitrariedade e pelos apetites de crescimento infinito. (ABJC)

OB001_CulturaIntegralIndividuo_24022025.pdf

 [3] Meditação na vigília de oração e rosário pela paz no Jubileu da espiritualidade mariana (11/10/2025)


sábado, 1 de agosto de 2026

 


                                    Sótão – uma “baba luminosa”
                                    de Madalena Sá Fernandes

O que mais impacta uma parte dos modernos amantes de Literatura (provavelmente, não a maior) é a capacidade que tem o escritor de estabelecer ligações semânticas entre significantes que, à partida, estão distantes, do ponto de vista do significado. Claro que tal exercício não nasceu com a Literatura contemporânea, e a linguagem poética, em particular, sempre apostou nos tropos dependentes da conotação. Se já os românticos contestavam os cânones clássicos (Victor Hugo proclamava «J’ai disloqué ce grand niais d’alexandrin», «Desconjuntei o grande idiota do alexandrino» – verso de 12 sílabas, com cesura entre a 6.ª e a 7.ª), com a revolução simbolista, a escrita, nomeadamente a poética, dá a primazia à música («de la musique avant toute chose», Mallarmé), o que leva a associações totalmente insuspeitas («Les sanglots longs des violons de l’automne plongent mon coeur dans une langueur monotone», Verlaine) ou revoluciona ainda mais o ritmo do verso. O surrealismo, depois, dispensa a música, para dar livre curso a uma corrente de consciência que prescinde da racionalidade, e a associações livres, no “cadavre exquis”. A contemporaneidade deu à busca incessante destas construções uma nova amplitude, umas vezes alheia à simples lógica formal, outras vezes dentro dos limites do raciocínio silogístico. Madalena Sá Fernandes (MSF) situa-se, a meu ver, neste último grupo: não explorando as possibilidades extremas que a linguagem nos oferece, consegue pôr diante dos nossos olhos analogias que permanecem dentro dos limites do racional e do familiar, por estranhas que sejam, por vezes.

Três parágrafos abrem Sótão, de MSF. Nove linhas em que a autora previne o leitor:

Quem aqui estiver [neste sótão que é o livro] pode escolher se é um adulto inclinado ou uma criança de pé.»

Nós dizemos: o leitor pode sempre entrar inclinado, até que vingue a criança de pé.

Situado no alto, mas de tecto baixo, o sótão distancia-se dos andares onde está a vida comum e é contíguo do infinito. Ir para o sótão é poder viver aventuras extraordinárias, incluindo aquilo que já vivemos, mas que ficou para trás. No sótão, é possível trazer tudo de volta. MSF trá-lo e acrescenta-lhe o que ficou por dizer, que é, às vezes, o que ficou por fazer.

Sótão tem uma estrutura diarística, dispensando, contudo, a datação. Todos sabemos, aliás, que os dias se sucedem uns aos outros. Para quê datá-los? Tanto mais que, para além de acções, com personagens deslocando-se no tempo e no espaço, o livro nos oferece um numeroso conjunto de reflexões que podem ser de hoje, de ontem, ou de sempre.

Neste livro, há, essencialmente, duas linhas reflexivas: memórias de tempos diversos e o exercício da escrita (o que pressupõe a reflexão sobre a palavra).

No seu sótão, nos seus sótãos, é onde a autora, baixando-se, se faz criança de pé, e brinca com as palavras que, fora do sótão, resistem a certas amizades, mas que, ali, se dão como amigas:

As gavetas estreitas guardavam o que não cabia nos dias […] e nenhum perigo do mundo alcançava o meu pescoço (cap. 2)

Nunca mais toquei piano. Passava por ele devagar, com um respeito supersticioso, temendo que tocá-lo fosse acordar alguma coisa. Percebi então que o verdadeiro poder não era o de tocar mais alto. Era o de impedir que outro tocasse. O de ocupar o espaço do som antes que o outro o tentasse. [O vizinho] não queria ouvir-me mal, ele queria que eu não ousasse. E, de certa forma, conseguiu. Roubou-me o som antes de eu o ter, como um gesto silencioso de extermínio. (cap. 5)

Infiltra-se de forma subtil, o medo, como a ferrugem que lentamente consome o metal. Condiciona gestos e escolhas. É o grande guardião do segredo. (cap. 6)

O sótão é, de certo modo, o espaço onde o inútil se transforma em permanência. Cada objecto é uma nota que deixou de circular, uma pequena sabotagem da utilidade. (cap. 42)

A isto acrescenta-se a reflexão sobre o exercício criativo e sobre o papel da memória:

Tal como o pássaro no ninho, sei que este livro é uma casa provisória: é feito para acolher aquilo que um dia terá de se lançar ao mundo. (cap.10)

É um esquecimento paciente [o das recordações], quase maternal, que as deixa partir com a confiança de que partirão. E é preciso tempo, um tempo longo, em que não faço nada, até que as recordações regressem por conta própria. (cap. 11)

Quem escreve conhece bem esse ponto. O instante antes de a frase se soltar, quando a mão ainda hesita, quando não se sabe se se vai conseguir avançar. E depois, subitamente, o texto levanta. […] Na escrita, há dias assim: o instante em que o texto avança sem ruído, em que a própria cabeça se torna cockpit e horizonte. Mas também sabemos que, como ela, voltaremos a aterrar. No regresso, lá estará o chão conhecido, com as suas regras e as suas expectativas. (cap. 22)

Ora, para que o texto “levante” e a cabeça se torne “cockpit e horizonte”, há uma condição que pode causar estranheza a muitos:

Para uma escritora, vencer espaços é também conquistar o tempo (tempo roubado ao que nos puxa para o decorativo), construir uma rotina que não peça desculpa por existir, habituar família, colegas, amigos a que “estou a trabalhar” signifique porta fechada. (cap. 22)

Este “estou a trabalhar” suscita a conhecida história sobre a governanta de Alexandre Herculano, quando já retirado em Vale de Lobos: tendo-lhe alguém perguntado o que fazia o patrão, ela terá respondido «Não faz nada, leva o dia inteiro a escrever». “Porta fechada” é coisa que família e amigos têm dificuldade em entender, correndo-se seriamente o risco de se ser alvo de juízos pouco abonatórios.

E, já agora, o resto do parágrafo:

Vencer espaços, sobretudo, é aceitar que o texto não precisa de caber nas expectativas do respeitável: pode ser barulhento, híbrido, perigoso.

O texto pode ser isso tudo, e, além disso tudo,

Contar é desenhar um círculo à volta do medo. (cap. 31)

A autora cita Boccaccio e Ésquilo, a este propósito. Poderia citar também Eduardo Galeano, quando, em Espelhos, se refere a Xerazade, “a mãe dos contadores de contos”, dizendo: «Foi do medo de morrer que nasceu a mestria de narrar.» (Antígona, 1.ª edição, p. 93)

É que, como os caracóis,

A literatura que me importa é essa: a que rasteja, lenta e clandestina, sobre as superfícies, deixando atrás de si um brilho quase invisível. Textos que sobrevivem pelo vestígio. Deixar no papel uma baba luminosa, discreta, um sinal frágil, mas persistente. Sobretudo, um rasto. (cap. 41)

Esta “baba luminosa”, este “rasto” é quanto basta para afastar o medo de morrer de quem escreve. Talvez por isso, referências a uma depressão e a episódios de violência na relação amorosa, o leitor quase não dá por elas. E é certamente por isso que Sótão deixa uma marca, “um sinal frágil, mas persistente” em quem o lê.


  O resto é lembrança , de Albino Matos – ou: o resgate do passado Há títulos que são transparentes: Os Maias, A Casa Grande de Romarigã...