O
resto é lembrança, de Albino
Matos –
ou: o
resgate do passado
Há títulos que são transparentes: Os Maias, A Casa
Grande de Romarigães, Os Malaquias… – histórias de famílias; outros
identificam o protagonista, pródigo em proezas ou actante em tramas dramáticas
ou trágicas: Dom Quixote, As Aventuras de Tom Sawyer, Jean Barois (na
tradução portuguesa: O Drama de João Barois)…; outros são enigmáticos,
podendo apontar para um pormenor descritivo irrelevante ou ter um carácter
simbólico: Uma Abelha na Chuva, Mar Morto, Levantado do Chão; etc.,
etc., etc.
O título do livro de memórias recentemente publicado por
Albino Matos, com a chancela das Edições Vieira da Silva (Junho p.p.), tem como
título O Resto é Lembrança. Sendo, à primeira vista, fácil de entender,
não deixa de causar alguma estranheza ao leitor propenso a deter-se em minúcias:
o resto de quê?
O resto é o que fica, depois de a maior parte ter sido
usada, é o que sobra ou sobeja, é o que até, por vezes, se pode desprezar,
porque o mais importante já foi usado ou usufruído. Mas, se o resto é a
lembrança, qual é a maior, e, presumivelmente, mais importante parte? A vida!
Porque a lembrança só existe graças à vida, parafraseando Violeta Parra (sem o encanto
melódico do pentassílabo castelhano). E se a lembrança é tão importante, ou não
fosse o testemunho de uma vida, porquê chamar-lhe resto?
A epígrafe de Louise Glück, a pp. 7, vem em meu auxílio:
We look at the
world once, in childhood.
The rest is memory.
Ou seja: vemos o mundo uma vez, na nossa infância; o resto
é … lembrança. É esse o título do livro de Albino Matos. Avancei? Não. Continuo
com a desagradável sensação de não dilucidar o significado exacto do título.
Felizmente, já não tenho de me sujeitar ao exame do 12.º ano, com ou sem
correcção digital. Chumbava. Ou talvez não. Fazia como o chatGPT, ao qual
recorri como derradeiro recurso: expunha hipóteses, dissertava.
De facto, a resposta é longa e pormenorizada, reveladora
de inteligência e de imaginação, ambas artificiais, mas nem por isso menos convincentes.
Transcrevo-a, na íntegra, no fim deste comentário que começa desastradamente,
ou não se metesse em trabalhos quem se mete em atalhos. Mas, já agora, antes de
sair da capa para, finalmente, entrar no livro, a interpretação “mais profunda”
do GPT:
todos nós temos, algures na
memória, um “primeiro mundo” que já não podemos voltar a ver como o vimos
então.
Cá está. Talvez… Seguramente, mesmo. É este “primeiro
mundo” que Albino Matos nos pranta diante dos olhos, com uma verve (facúndia,
devia eu dizer, que não há como preterir o vernáculo a favor do estrangeirismo),
um afinco e um rigor memorialístico que impressionam o comentador, por acaso da
mesma idade e naturalidade do Autor: 1948, Porto.
Pois bem, julgava este comentador ir ler um livro de
contos, mas este livro, que conta, efectivamente, histórias – e histórias que
podiam ser, em muitos casos, pura ficção narrativa – é um livro de “Memórias de
infância”, conforme consta da folha de rosto. E não se imagine que todas essas
memórias vêm dos cinco, seis ou sete anos. Algumas, sim, mas a recordação mais
antiga do narrador (a personagem que fala em nome de Albino Matos e na qual o
Autor investiu conhecimento e capacidade de a esse conhecimento dar forma literária)
data dos seus vinte e dois meses de vida. Foi então que a progenitora o
“apartou”, isto é, o privou de mamar, segundo relato da própria, que bem pudera
ser chamado “depoimento” ou não viesse o “infante” (vernáculo que o A. usa abundantemente)
a tornar-se juiz, entre outras profissões do Direito.
Recordações, da mais tenra idade até aos tempos de
estudante liceal, não faltam nos cinquenta e cinco capítulos deste livro.
Algumas delas tocam-me particularmente, porque coincidem (só em parte, claro) com
as minhas. É o caso de “A praia”, que relata a experiência da “primeira
temporada de praia. Ali mesmo na Foz, na Praia da Luz, a primeira a contar do
Farol, no termo do Porto…” Eu ia mais para a do Molhe, um pouco mais à frente,
a caminho do Castelo do Queijo, mas tive uma namoradinha na Rua da Senhora da
Luz (seria mesmo este o nome daquela ruazinha estreita e íngreme que desemboca,
se a memória não me trai, em frente à praia em questão? Na altura, já eu tinha
dezasseis ou dezassete anos. Não sei se o Albino Matos, com a mesma idade,
continuou a lá ir, beneficiando dos cuidados da tia concessionária da
exploração, ou se só lá voltou “já perto dos trinta anos” (p. 181), mas é provável
que tenhamos calcorreado os mesmos sítios. Certo é que não nos banhámos duas
vezes nas mesmas águas do mar, que todo o mundo é composto de mudança.
Outra lembrança que temos em comum (a minha, muito limitada),
é a de Resende, em cuja cercania passei uns dias em miúdo e pude testemunhar o
que era a pobreza extrema de tantas famílias. De uma delas, recordo a mulher
que me franqueou a entrada numa espécie de choça, sua morada (ou morada do
casal, se é que havia casal) adossada a uma pequena encosta e amanhada com
tábuas e chapas. A um canto, num cesto de vime, um bebé esquelético. Vai morrer
– diz-me a mulher – não tenho leite para lhe dar. E o miúdo que eu era,
imaginando-se protagonista de um salvamento in extremis: Vou-lhe buscar leite
em pó.
Não sei já, mas, habituado a tomar leite e sendo talvez
difícil obtê-lo naquele local, os meus pais devem ter deixado uma lata do tal
leite em pó à família que lhe acolhia o rebento habituado a certos mimos. Foi
essa lata que fui levar à mãe do bebé. Em vão. O último suspiro do inocente
tinha ocorrido. Sem assistência, sem alimento, sem futuro. Isto nos anos
cinquenta, em plena “democracia orgânica”, conforme rezava o discurso oficial.
Um tempo de que alguns exaltam a bondade. Por ignorância, ingenuidade, inconsciente
masoquismo ou pura má-fé.
Feitos estes parêntesis, pede-se um pouco de contenção e
de sistematização. Vejamos se consigo:
O que mais incisivamente impressiona este
leitor/comentador são as seguintes características do livro:
a. a
abundância e rigor de pormenores respeitantes a locais, a gentes e formas de vida,
ao progresso que vai chegando, à organização político-administrativa do
território e aos sentimentos identitários de cada comunidade – o que configura
um didactismo histórico e etnográfico relevante;
b. a
apropriação (legítima) pelo narrador do sociolecto da sua comunidade de origem;
c. a
multiplicidade de referências e explicações de carácter lexical.
Tratando-se de “memórias de infância” do Autor, não podia
deixar de ser este o protagonista de grande parte das narrativas, mas não o é
de todas elas, já que são também muitas aquelas em que parentes próximos,
colegas de escola e uma mão cheia de patrícios compõem uma bem recheada galeria
de tipos, que vão da Maria Ferreira e Amadeu, ao Zé Pereira, ao Lério, ao
Benjamim Madureira e por aí adiante. Ora estas personagens, esculpidas a cinzel
afiado (além de memorialista, o A. pode gabar-se de dotes retratistas, ou de
escultor, para continuar no registo metafórico do cinzel), vestem roupas da
época, falam à moda da terra, levam a vida que era a do tempo, trabalham,
divertem-se, dizem larachas, são postas diante de novas realidades trazidas
pelo (lento) progresso, reagem à novidade, aprendem, adaptam-se. Em suma:
mostram ao leitor como se vivia no interior do país, longe das cidades, em
terras do Douro Litoral, distrito de Viseu, no início da segunda metade do
século XX.
Quanto à língua, há que ter em conta três aspectos: um, o
idiolecto do Autor, a sua capacidade de manejar a língua com a destreza e
elegância de um prosador a quem não falta nem a riqueza do código (linguístico,
que o civil e o penal não são para aqui chamados), nem o domínio da
morfossintaxe e dos tropos; outro, o sociolecto local, próprio da comunidade em
que viveu durante a infância e adolescência, que o A. incorpora abundantemente
no discurso do próprio narrador, levando o leitor a parar um instante para
tentar adivinhar o significado de tal ou tal outro vocábulo ou expressão,
sempre que não são explicados, porque acontece serem-no, como, por exemplo,
logo no primeiro capítulo, primeira página:
… até ao portão da horta
(cancelo, digo, não se dizia portão)
Mas também acontece o contrário
Menos enquanto, a bola escapa
ao merouço dos jogadores e vem rasteira … (cap. 19)
O uso da contracção e da corruptela é intensivo:
tudo isto literal e
histórico, mamigos, realidade pura … ia buscar à vila e vinha pi-acima a vender
(cap. 18)
… o nome era Leixandre,
bá-lá-ber se nos entendemos… (cap. 32)
… e lá vou eu empós dela …
(cap. 43)
… hora e meia a duas horas,
consante, com direito a parar uma vez ou duas a beber um copo na venda … (cap.
46)
… – A ‘bença’ – dizia-lhe eu
ao chegar … (cap.50)
mas tem-se alguma dificuldade em distinguir o que é
propriamente corruptela daquilo que é herança do português medieval, ele
próprio descendente do galego falado na região antes da fundação da
nacionalidade, quando se estendia «a Galiza para sul até à linha do rio Vouga,
ou mesmo do rio Mondego» (p. 212).
O terceiro aspecto que anuncio mais acima está
estreitamente ligado ao anterior: o A. detém-se frequentemente na explicação da
origem e do significado do vocabulário usado, o que faz deste livro de memórias
um valioso alfobre de carácter linguístico, seguramente muito útil para quem se
dedica a este estudo, tanto numa perspectiva sincrónica (o funcionamento da
língua em determinada localidade e época), quanto na perspectiva diacrónica (a
evolução da língua, particularmente a partir do galego).
A título de exemplo, do léxico do avô do Autor constam
termos do português medieval,
que se encontram em Fernão Lopes (cap. 51),
caso de “çarrar” (encostar), “saluços”, “notairo”,
“cuitelo.
Enfim, o A. relativiza a questão:
É estranho, mas é assim mesmo,
a gente criava-se com duas línguas, ao mesmo tempo, a língua da escola, da
igreja, da gente culta, e a língua dos caminhos, do povo, dos pobres, da gente
miúda: a língua do padrão, a par da língua de pobre, como aqui entendo
designá-la. Na verdade, não serão exactamente duas línguas, mas antes duas
normas distintas de um mesmo sistema linguístico, a norma culta, por um lado, e
a norma local, por outro; ou talvez melhor, a norma nacional e a norma
regional, que aqui chamo língua de pobre.
Quando me refiro à “utilidade” deste livro, estou,
obviamente, a pensar em estudos de História da Língua, nos departamentos de
Linguística das Universidades.
Três apontamentos rápidos, para terminar:
1. É notória
a identificação solidária do A. com a sua comunidade de origem e o seu desgosto
pela inexistente lembrança (voltamos ao título!) desses tempos, gentes e costumes:
é
uma pena que tal mundo vá ficar para sempre no desconhecimento dos viventes,
ignorado pela história, desconhecido pela arte, desprezado pela literatura.
Como se nunca tivesse existido.
Mas
existiu… E mexeu com muita gente. E essa não era uma gente qualquer, era gente
lá para a frente, para o dizer como diria o Martigueiro. Gente de grande valor,
que não conhecia medo ou desânimo, que fez das fraquezas forças … (cap. 38)
2. Igualmente
assinalável a sensibilidade ao sofrimento dos mais fracos, expostos ao rigor da
lei:
Lei
havia, nesse tempo, previdência é que não; justiça havia, para defender o
sistema e a propriedade, segurança social vou ali e já venho. (cap. 21)
3. Enfim,
um “currículo” religioso que não me surpreende, como não me surpreendem, aliás,
as anteriores observações, tendo em conta o que de Albino Matos conheço,
através de certa rede social:
Tal
currículo [catequese, no capítulo discente e no docente] não sei se teve outra
virtude, mas deu-me ao menos alguma familiaridade com a doutrina bíblica, em
particular o Novo Testamento, com destaque para os Evangelhos; útil em algumas
discussões que teria depois com certos fariseus que viria a encontrar pela vida
fora, mas nada mais do que isso. (cap. 54)
Este é um livro que me vai ficar na lembrança.
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Da IA:
Os versos de Louise Glück
— “We look at the world once, in childhood. The rest is memory.” — podem ser entendidos como
uma reflexão muito profunda sobre a infância, a perceção e a memória.
Uma tradução possível seria:
“Olhamos para o mundo uma vez, na infância. O
resto é memória.”
O que
significa “olhamos para o mundo uma vez”?
Glück parece dizer que a infância é o momento
em que vemos o mundo verdadeiramente pela primeira vez. Quando somos
crianças, tudo é novo: uma árvore, uma casa, a chuva, um animal, uma viagem, o
rosto dos pais, o medo, a alegria.
Não temos ainda uma história pessoal
suficientemente longa para comparar aquilo que vemos com experiências
anteriores. Por isso, o mundo apresenta-se como novidade absoluta.
Um adulto pode olhar para uma árvore e
simplesmente reconhecer: é uma árvore. Uma criança pode olhar para
aquela mesma árvore como algo misterioso, enorme, quase mágico.
“The rest is
memory”
A segunda frase é mais melancólica.
Depois da infância, já não vemos o mundo pela
primeira vez. Passamos a olhar para as coisas através daquilo que já
vivemos.
Uma casa deixa de ser simplesmente uma casa:
lembra-nos outra casa.
Uma determinada música traz uma época da nossa vida.
Um cheiro pode fazer regressar alguém.
Um lugar pode fazer-nos pensar em quem éramos quando estivemos lá antes.
Ou seja, a experiência presente começa a ser
filtrada pelo passado.
E há aqui uma ideia ainda mais radical: talvez
aquilo a que chamamos “ver o mundo” seja, em grande parte, recordar o mundo.
Há também uma
dimensão de perda
A frase é bonita, mas não é propriamente
otimista. Há nela uma espécie de luto pela infância.
Não podemos voltar àquele primeiro olhar.
Podemos voltar ao mesmo jardim, à mesma casa, à
mesma praia, mas já não somos a criança que os viu pela primeira vez.
Quando regressamos, não encontramos exatamente o lugar original; encontramos o
lugar misturado com a nossa memória dele.
É como se Glück dissesse:
A infância acontece uma única vez. Depois
passamos a viver, em certa medida, à sombra daquilo que vimos quando éramos
crianças.
E isso ajuda a explicar uma característica muito
forte da poesia de Glück: a tentativa de regressar através da linguagem
àquilo que já não pode ser recuperado diretamente.
Uma
interpretação ainda mais profunda
Há uma ambiguidade interessante no verbo “look”.
Ela não diz “We experience the world once”
(“experimentamos o mundo uma vez”). Diz “We look at the world once” — olhamos para o mundo.
Isso torna a frase quase filosófica: há um
primeiro olhar, inocente e original, e depois há todos os outros olhares,
que já carregam conhecimento, experiência, perda e memória.
Por isso, os versos podem ser lidos como uma
definição muito condensada da passagem da infância para a idade adulta:
infância → descoberta → experiência → memória.
E talvez seja precisamente por isso que a frase
nos toca tanto: todos nós temos, algures na memória, um “primeiro mundo” que
já não podemos voltar a ver como o vimos então.
