Sótão – uma “baba luminosa”
de Madalena Sá Fernandes
O que mais impacta uma parte dos modernos amantes
de Literatura (provavelmente, não a maior) é a capacidade que tem o escritor de
estabelecer ligações semânticas entre significantes que, à partida, estão
distantes, do ponto de vista do significado. Claro que tal exercício não nasceu
com a Literatura contemporânea, e a linguagem poética, em particular, sempre
apostou nos tropos dependentes da conotação. Se já os românticos contestavam os
cânones clássicos (Victor Hugo proclamava «J’ai disloqué ce grand niais
d’alexandrin», «Desconjuntei o grande idiota do alexandrino» – verso de 12
sílabas, com cesura entre a 6.ª e a 7.ª), com a revolução simbolista, a escrita,
nomeadamente a poética, dá a primazia à música («de la musique avant toute
chose», Mallarmé), o que leva a associações totalmente insuspeitas («Les
sanglots longs des violons de l’automne plongent mon coeur dans une langueur
monotone», Verlaine) ou revoluciona ainda mais o ritmo do verso. O surrealismo,
depois, dispensa a música, para dar livre curso a uma corrente de consciência
que prescinde da racionalidade, e a associações livres, no “cadavre exquis”. A
contemporaneidade deu à busca incessante destas construções uma nova amplitude,
umas vezes alheia à simples lógica formal, outras vezes dentro dos limites do
raciocínio silogístico. Madalena Sá Fernandes (MSF) situa-se, a meu ver, neste
último grupo: não explorando as possibilidades extremas que a linguagem nos
oferece, consegue pôr diante dos nossos olhos analogias que permanecem dentro
dos limites do racional e do familiar, por estranhas que sejam, por vezes.
Três parágrafos abrem Sótão, de MSF.
Nove linhas em que a autora previne o leitor:
Quem aqui
estiver [neste sótão que é o livro] pode escolher se é um adulto inclinado ou
uma criança de pé.»
Nós dizemos: o leitor pode sempre entrar
inclinado, até que vingue a criança de pé.
Situado no alto, mas de tecto baixo, o sótão
distancia-se dos andares onde está a vida comum e é contíguo do infinito. Ir
para o sótão é poder viver aventuras extraordinárias, incluindo aquilo que já
vivemos, mas que ficou para trás. No sótão, é possível trazer tudo de volta.
MSF trá-lo e acrescenta-lhe o que ficou por dizer, que é, às vezes, o que ficou
por fazer.
Sótão tem uma estrutura diarística, dispensando, contudo, a datação.
Todos sabemos, aliás, que os dias se sucedem uns aos outros. Para quê datá-los?
Tanto mais que, para além de acções, com personagens deslocando-se no tempo e
no espaço, o livro nos oferece um numeroso conjunto de reflexões que podem ser
de hoje, de ontem, ou de sempre.
Neste livro, há, essencialmente, duas linhas
reflexivas: memórias de tempos diversos e o exercício da escrita (o que
pressupõe a reflexão sobre a palavra).
No seu sótão, nos seus sótãos, é onde a
autora, baixando-se, se faz criança de pé, e brinca com as palavras que, fora
do sótão, resistem a certas amizades, mas que, ali, se dão como amigas:
As gavetas
estreitas guardavam o que não cabia nos dias […] e nenhum perigo do mundo
alcançava o meu pescoço (cap. 2)
Nunca mais
toquei piano. Passava por ele devagar, com um respeito supersticioso, temendo
que tocá-lo fosse acordar alguma coisa. Percebi então que o verdadeiro poder
não era o de tocar mais alto. Era o de impedir que outro tocasse. O de ocupar o
espaço do som antes que o outro o tentasse. [O vizinho] não queria ouvir-me
mal, ele queria que eu não ousasse. E, de certa forma, conseguiu. Roubou-me o
som antes de eu o ter, como um gesto silencioso de extermínio. (cap. 5)
Infiltra-se de
forma subtil, o medo, como a ferrugem que lentamente consome o metal.
Condiciona gestos e escolhas. É o grande guardião do segredo. (cap. 6)
O sótão é, de
certo modo, o espaço onde o inútil se transforma em permanência. Cada objecto é
uma nota que deixou de circular, uma pequena sabotagem da utilidade. (cap. 42)
A isto acrescenta-se a reflexão sobre o
exercício criativo e sobre o papel da memória:
Tal como o
pássaro no ninho, sei que este livro é uma casa provisória: é feito para
acolher aquilo que um dia terá de se lançar ao mundo. (cap.10)
É um
esquecimento paciente [o das recordações], quase maternal, que as deixa partir
com a confiança de que partirão. E é preciso tempo, um tempo longo, em que não
faço nada, até que as recordações regressem por conta própria. (cap. 11)
Quem escreve
conhece bem esse ponto. O instante antes de a frase se soltar, quando a mão
ainda hesita, quando não se sabe se se vai conseguir avançar. E depois,
subitamente, o texto levanta. […] Na escrita, há dias assim: o instante em que
o texto avança sem ruído, em que a própria cabeça se torna cockpit e horizonte.
Mas também sabemos que, como ela, voltaremos a aterrar. No regresso, lá estará
o chão conhecido, com as suas regras e as suas expectativas. (cap. 22)
Ora, para que o texto “levante” e a cabeça
se torne “cockpit e horizonte”, há uma condição que pode causar estranheza a
muitos:
Para uma
escritora, vencer espaços é também conquistar o tempo (tempo roubado ao que nos
puxa para o decorativo), construir uma rotina que não peça desculpa por
existir, habituar família, colegas, amigos a que “estou a trabalhar” signifique
porta fechada. (cap. 22)
Este “estou a trabalhar” suscita a conhecida
história sobre a governanta de Alexandre Herculano, quando já retirado em Vale
de Lobos: tendo-lhe alguém perguntado o que fazia o patrão, ela terá respondido
«Não faz nada, leva o dia inteiro a escrever». “Porta fechada” é coisa que
família e amigos têm dificuldade em entender, correndo-se seriamente o risco de
se ser alvo de juízos pouco abonatórios.
E, já agora, o resto do parágrafo:
Vencer espaços,
sobretudo, é aceitar que o texto não precisa de caber nas expectativas do
respeitável: pode ser barulhento, híbrido, perigoso.
O texto pode ser isso tudo, e, além disso
tudo,
Contar é
desenhar um círculo à volta do medo. (cap. 31)
A autora cita Boccaccio e Ésquilo, a este
propósito. Poderia citar também Eduardo Galeano, quando, em Espelhos, se
refere a Xerazade, “a mãe dos contadores de contos”, dizendo: «Foi do medo de
morrer que nasceu a mestria de narrar.» (Antígona, 1.ª edição, p. 93)
É que, como os caracóis,
A literatura
que me importa é essa: a que rasteja, lenta e clandestina, sobre as
superfícies, deixando atrás de si um brilho quase invisível. Textos que
sobrevivem pelo vestígio. Deixar no papel uma baba luminosa, discreta, um sinal
frágil, mas persistente. Sobretudo, um rasto. (cap. 41)
Esta “baba luminosa”, este “rasto” é quanto
basta para afastar o medo de morrer de quem escreve. Talvez por isso,
referências a uma depressão e a episódios de violência na relação amorosa, o leitor
quase não dá por elas. E é certamente por isso que Sótão deixa uma
marca, “um sinal frágil, mas persistente” em quem o lê.

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