sábado, 1 de agosto de 2026

 


                                    Sótão – uma “baba luminosa”
                                    de Madalena Sá Fernandes

O que mais impacta uma parte dos modernos amantes de Literatura (provavelmente, não a maior) é a capacidade que tem o escritor de estabelecer ligações semânticas entre significantes que, à partida, estão distantes, do ponto de vista do significado. Claro que tal exercício não nasceu com a Literatura contemporânea, e a linguagem poética, em particular, sempre apostou nos tropos dependentes da conotação. Se já os românticos contestavam os cânones clássicos (Victor Hugo proclamava «J’ai disloqué ce grand niais d’alexandrin», «Desconjuntei o grande idiota do alexandrino» – verso de 12 sílabas, com cesura entre a 6.ª e a 7.ª), com a revolução simbolista, a escrita, nomeadamente a poética, dá a primazia à música («de la musique avant toute chose», Mallarmé), o que leva a associações totalmente insuspeitas («Les sanglots longs des violons de l’automne plongent mon coeur dans une langueur monotone», Verlaine) ou revoluciona ainda mais o ritmo do verso. O surrealismo, depois, dispensa a música, para dar livre curso a uma corrente de consciência que prescinde da racionalidade, e a associações livres, no “cadavre exquis”. A contemporaneidade deu à busca incessante destas construções uma nova amplitude, umas vezes alheia à simples lógica formal, outras vezes dentro dos limites do raciocínio silogístico. Madalena Sá Fernandes (MSF) situa-se, a meu ver, neste último grupo: não explorando as possibilidades extremas que a linguagem nos oferece, consegue pôr diante dos nossos olhos analogias que permanecem dentro dos limites do racional e do familiar, por estranhas que sejam, por vezes.

Três parágrafos abrem Sótão, de MSF. Nove linhas em que a autora previne o leitor:

Quem aqui estiver [neste sótão que é o livro] pode escolher se é um adulto inclinado ou uma criança de pé.»

Nós dizemos: o leitor pode sempre entrar inclinado, até que vingue a criança de pé.

Situado no alto, mas de tecto baixo, o sótão distancia-se dos andares onde está a vida comum e é contíguo do infinito. Ir para o sótão é poder viver aventuras extraordinárias, incluindo aquilo que já vivemos, mas que ficou para trás. No sótão, é possível trazer tudo de volta. MSF trá-lo e acrescenta-lhe o que ficou por dizer, que é, às vezes, o que ficou por fazer.

Sótão tem uma estrutura diarística, dispensando, contudo, a datação. Todos sabemos, aliás, que os dias se sucedem uns aos outros. Para quê datá-los? Tanto mais que, para além de acções, com personagens deslocando-se no tempo e no espaço, o livro nos oferece um numeroso conjunto de reflexões que podem ser de hoje, de ontem, ou de sempre.

Neste livro, há, essencialmente, duas linhas reflexivas: memórias de tempos diversos e o exercício da escrita (o que pressupõe a reflexão sobre a palavra).

No seu sótão, nos seus sótãos, é onde a autora, baixando-se, se faz criança de pé, e brinca com as palavras que, fora do sótão, resistem a certas amizades, mas que, ali, se dão como amigas:

As gavetas estreitas guardavam o que não cabia nos dias […] e nenhum perigo do mundo alcançava o meu pescoço (cap. 2)

Nunca mais toquei piano. Passava por ele devagar, com um respeito supersticioso, temendo que tocá-lo fosse acordar alguma coisa. Percebi então que o verdadeiro poder não era o de tocar mais alto. Era o de impedir que outro tocasse. O de ocupar o espaço do som antes que o outro o tentasse. [O vizinho] não queria ouvir-me mal, ele queria que eu não ousasse. E, de certa forma, conseguiu. Roubou-me o som antes de eu o ter, como um gesto silencioso de extermínio. (cap. 5)

Infiltra-se de forma subtil, o medo, como a ferrugem que lentamente consome o metal. Condiciona gestos e escolhas. É o grande guardião do segredo. (cap. 6)

O sótão é, de certo modo, o espaço onde o inútil se transforma em permanência. Cada objecto é uma nota que deixou de circular, uma pequena sabotagem da utilidade. (cap. 42)

A isto acrescenta-se a reflexão sobre o exercício criativo e sobre o papel da memória:

Tal como o pássaro no ninho, sei que este livro é uma casa provisória: é feito para acolher aquilo que um dia terá de se lançar ao mundo. (cap.10)

É um esquecimento paciente [o das recordações], quase maternal, que as deixa partir com a confiança de que partirão. E é preciso tempo, um tempo longo, em que não faço nada, até que as recordações regressem por conta própria. (cap. 11)

Quem escreve conhece bem esse ponto. O instante antes de a frase se soltar, quando a mão ainda hesita, quando não se sabe se se vai conseguir avançar. E depois, subitamente, o texto levanta. […] Na escrita, há dias assim: o instante em que o texto avança sem ruído, em que a própria cabeça se torna cockpit e horizonte. Mas também sabemos que, como ela, voltaremos a aterrar. No regresso, lá estará o chão conhecido, com as suas regras e as suas expectativas. (cap. 22)

Ora, para que o texto “levante” e a cabeça se torne “cockpit e horizonte”, há uma condição que pode causar estranheza a muitos:

Para uma escritora, vencer espaços é também conquistar o tempo (tempo roubado ao que nos puxa para o decorativo), construir uma rotina que não peça desculpa por existir, habituar família, colegas, amigos a que “estou a trabalhar” signifique porta fechada. (cap. 22)

Este “estou a trabalhar” suscita a conhecida história sobre a governanta de Alexandre Herculano, quando já retirado em Vale de Lobos: tendo-lhe alguém perguntado o que fazia o patrão, ela terá respondido «Não faz nada, leva o dia inteiro a escrever». “Porta fechada” é coisa que família e amigos têm dificuldade em entender, correndo-se seriamente o risco de se ser alvo de juízos pouco abonatórios.

E, já agora, o resto do parágrafo:

Vencer espaços, sobretudo, é aceitar que o texto não precisa de caber nas expectativas do respeitável: pode ser barulhento, híbrido, perigoso.

O texto pode ser isso tudo, e, além disso tudo,

Contar é desenhar um círculo à volta do medo. (cap. 31)

A autora cita Boccaccio e Ésquilo, a este propósito. Poderia citar também Eduardo Galeano, quando, em Espelhos, se refere a Xerazade, “a mãe dos contadores de contos”, dizendo: «Foi do medo de morrer que nasceu a mestria de narrar.» (Antígona, 1.ª edição, p. 93)

É que, como os caracóis,

A literatura que me importa é essa: a que rasteja, lenta e clandestina, sobre as superfícies, deixando atrás de si um brilho quase invisível. Textos que sobrevivem pelo vestígio. Deixar no papel uma baba luminosa, discreta, um sinal frágil, mas persistente. Sobretudo, um rasto. (cap. 41)

Esta “baba luminosa”, este “rasto” é quanto basta para afastar o medo de morrer de quem escreve. Talvez por isso, referências a uma depressão e a episódios de violência na relação amorosa, o leitor quase não dá por elas. E é certamente por isso que Sótão deixa uma marca, “um sinal frágil, mas persistente” em quem o lê.


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