Sartre foi um humanista existencialista defensor da causa do proletariado; Camus, foi, no dizer do primeiro, um “humanista burguês”, defensor da revolta contra a revolução. Sartre debruçou-se sobre a existência, que pré-existe à essência, que a modela ou define e que é o objecto da História; Camus viu na existência um intricado novelo em que o absurdo domina e conduz a História num emaranhado sem horizonte. Identifico-me preferentemente com o primeiro, pelo seu engajamento na acção; admiro o segundo, pela profundidade cultural e argumentativa, mesmo discordando; invejo a ambos pelo seu enorme génio.
A revolta, que consente ao indivíduo preservar a sua presumível liberdade de pensamento e acção, priva-o da capacidade de determinar a mudança colectiva – pelo menos, no sentido mais favorável ao maior número; a acção concertada do grande número logra atingir uma mudança que prevalece, sob condição de as posições individuais se harmonizarem e as indefectivelmente contrárias serem mantidas sob controlo. A primazia dada à liberdade individual põe o indivíduo no centro do Universo, inoperante face às vicissitudes que atingem o colectivo; a opção “colectivocêntrica”, sujeita as divergências individuais à decisão maioritária e reprime a dissidência, que compromete o vencimento da posição colectiva. A revolta logra ocasionalmente abalar o poder dominante, mas, historicamente, não o derruba; a revolução sai historicamente vencedora, no confronto com o poder estabelecido, e salda-se pelo avanço civilizacional, mesmo quando há, como é de regra, avanços e recuos, nos curto e médio prazos.
No seu conhecido ensaio, Camus imagina um Sísifo cuja existência é absurda, mas cujo esforço para alcançar o cume basta para lhe “encher o coração”, contrariando de algum modo o castigo dos deuses, num tempo mítico que mortifica a consciência e não oblitera a sua solidão; Sartre reconhece a angústia do homem, só no Universo, enquanto espécie, mas acompanhado, enquanto parte de um todo actuante: não é um Sísifo que ele vê, é uma multidão capaz de devolver a rocha ao remetente.
A História está cheia de deuses castigadores e de Sísifos, de Tântalos, de Prometeus que ousam desobedecer, resistir e contrariar os destinos que as divindades lhes querem impor.
No mundo de hoje, de agora, é arriscado imaginar que o esforço para atingir os cumes faça Sísifo feliz. (Já era arriscado no tempo de Camus, e antes, e antes). Mais fácil é constatar que os deuses infligem castigos e parecem levar vencimento. Descontando todos os exageros e impropriedades das comparações, vemos, por toda a parte, Sísifos a lutar por falsos cumes e conformados – uns mais, outros menos – com o absurdo dos castigos a que são sujeitos. Pior: vemos mudanças, de sentido histórica e civilizacionalmente progressista, aparentemente remetidas para as calendas gregas por decisão de deuses, semideuses e heróis.
Sísifo pára um instante, enxuga o suor do rosto, sabe o que o espera, mas hesita: a luta pelos cumes vai recomeçar no sopé – razão para lhe “encher o coração” ou para se alhear/alienar no absurdo dum mundo que é seu, mas onde é estrangeiro?
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