A CATEDRAL DO MAR –
ou a História à flor da pele
O livro foi-me oferecido
quando estava a ler A Montanha do Mann (passe a familiaridade com que
trato livro e autor). Às oitocentas páginas do alemão, seguiram-se as
setecentas do catalão. Diferentes em tudo.
Reconheço que sofro de
pernicioso preconceito em relação a obras e autores badalados: carecem da
sedimentação que só o tempo confere. Mas lembro-me sempre da surpresa que foi a
leitura d’ O Remorso de Baltazar Serapião, de Válter Hugo Mãe (custa-me
grafá-lo à moda dele, com minúsculas). O homem até tocava numa banda e tudo…
Como podia ele escrever alguma coisa de jeito?! E, depois, foi o que se viu,
quero dizer: o que senti – o deslumbramento, o espanto. Aquela linguagem arcaizante
num discurso inovador, aquela história perturbadora contada sem papas na língua…
Foi, pois, por me saber padecente de tal preconceito que me lancei na leitura
do “fenómeno editorial mundial sem precedentes”, conforme reza a badana da
capa. Só lendo, poderia chegar a uma conclusão justa.
O primeiro capítulo é
encimado pela referência espácio-temporal
Ano 1320.
Casa de Bernat
Estanyol.
Navarcles,
principado da Catalunha.
Estamos em plena Baixa
Idade Média, numa Península que era um mosaico de reinos, principados e feudos
em constante ebulição, mudança de “proprietário” e pendências intermináveis.
Num momento de lucidez, o
ancião Estanyol, apodado de louco por via dos seus desvarios e delírios, explica
ao filho Bernat (que se vai casar) pormenores do direito feudal respeitante à
propriedade. O leitor é, logo a abrir, confrontado com os conceitos de
“enfiteuse” (domínio útil da propriedade do senhor, em troca de uma pensão
anual) e de “intestia” («o senhor tem o direito de herdar parte dos bens dos
seus vassalos», p. 489), mas é só uma pequena amostra do que virá no
desenrolar da acção, pródigo em referências ao direito então vigente, nos
domínios da posse da terra, da vida económica e financeira, do casamento, etc.
Tudo isto numa época em que o senhor feudal tem o monopólio do forno, da forja,
da correaria, interditados aos camponeses (p. 17), época em que o povo cultiva
uma devoção sem limites e em que o papado e a Inquisição exercem a sua
autoridade espiritual (q.b.), num plano de igualdade, quando não de
superioridade, relativamente ao poder temporal dos monarcas. Aliás, em Castela
a Inquisição é instituída em 1487, mas desde 1249 que
«a
Catalunha dispôs de tribunais da Inquisição totalmente diferenciados e
independentes da tradicional jurisdição eclesiástica exercida através dos
tribunais episcopais» (p. 730).
Tal antecipação terá
certamente a ver com o facto de
«a
maioria das doutrinas consideradas heréticas pela Igreja [ter passado] de
França para a Catalunha: primeiro os cátaros e os valdenses, depois os begardos
e, por último, os templários, perseguidos pelo rei francês» (p. 530).
Como sempre, o conluio
entre clero, nobreza e até uma burguesia incipiente torna possível todo o tipo
de traficância em nome de Deus e do bem geral :
«desde
que se perdeu definitivamente a Cidade Santa, a Igreja proibiu o comércio com o
sultão do Egipto, mas a verdade é que é lá que os nossos comerciantes obtêm as
melhores mercadorias e nenhum deles está disposto a deixar de fazer comércio
com o sultão; por isso, antes de o fazerem, dirigem-se aos consulados do mar e
pagam uma multa pelo pecado que vão cometer. Assim, são absolvidos
adiantadamente e já não pecam. O rei Afonso ordenou que todos esses dinheiros
fossem usados na construção dos novos estaleiros de Barcelona» (p. 236). Uma espécie de indulgência remissória de
pecados por cometer…
Todavia, o direito mais
imediatamente visado neste primeiro capítulo é o chamado direito de pernada –
nada mais nada menos do que isto: por ocasião do matrimónio dos servos, o
senhor feudal dispunha do poder de passar a primeira noite com a noiva. E
Llorenç de Bellera, o senhor deste feudo, nem espera pela noite. No decorrer da
boda, para a qual se faz convidado, força a jovem Francesca e, não satisfeito
com a proeza, obriga o noivo ultrajado a “servir-se” dela, logo a seguir, sob
ameaça de, não o fazendo, serem os seus soldados a fazê-lo. A cena é de extrema
desfaçatez, crueldade e violência, e o leitor, desconfortado, suspeita que não
será poupado a muitas outras.
Na peça de teatro O
Casamento de Fígaro (Bodas de Fígaro, na versão operática de
Mozart), o fulcro da acção é também o “droit de jambage” ou “de cuissage”, mas
a astúcia das personagens logra defraudar as intenções do Conde Almaviva.
Estava-se num século XVIII bem avançado, e a peça de Beaumarchais foi
considerada um ensaio geral para a Revolução Francesa: os direitos feudais
estavam moribundos. Pelo contrário, no século XIV – e n’A Catedral do Mar
isso está bem exemplificado – só muito pontualmente uma revolta lograva dissuadir
os nobres, estribados no seu direito, de levar avante os seus desmandos.
As dezasseis páginas do capítulo
I revelam características do romance e do autor que a leitura dos cinquenta e
nove restantes confirmará.
Primeiro, uma grande soma
de conhecimentos sobre o que foi este período da História da Catalunha, da
Península e até de regiões mediterrânicas que vieram a ser integrantes da
França (o Roussillon, p. ex.). Uma Nota do Autor, no fim do livro, elucida o
leitor sobre as suas fontes, das quais a principal terá sido a Crónica
de Pedro III,
«com
as necessárias adaptações exigidas por uma obra de ficção» (p. 723).
Depois, uma imaginação
transbordante, com episódios e peripécias sabiamente delineados para conferir à
narrativa a inegável capacidade de manter o leitor curioso dos respectivos
desfechos, com personagens que se encontram e desencontram, para mais tarde se
reencontrarem, nem sempre sabendo se são ou não quem parecem poder ser.
A avaliação é menos positiva
no tocante à linguagem. O objectivo do autor, no romance histórico, não é o de
transportar o leitor para um espaço/tempo onírico ou fantasioso, com recurso
sistemático à conotação e aos tropos da linguagem poética, de onde se infere
que o registo linguístico estará mais próximo do nível corrente do que seria de
regra numa outra narrativa de carácter ficcional ou, mais ainda, na poesia.
Acontece, contudo, que a personagem do narrador – personagem de papel, é certo,
mas, neste caso, mero representante ficcional do autor – cai, por vezes, no
recurso a termos umas vezes banais, gastos, sem relevo, autênticos clichés
(caso da “posição fetal”, pp. 25 e 608, que trai uma espécie de novo-riquismo
vocabular enjoativo); outras vezes, termos desnecessariamente (pouco)
encobridores de uma realidade que não tem que ser escondida (uso de “clímax”,
p. 27, heterónimo demasiado gasto de “orgasmo”); outras vezes, ainda, termos de
uma vulgaridade que denuncia mau gosto, como é o caso do “entrepernas”, pp. 282
e 606, para designar a púbis (muito embora o dicionário não identifique a
palavra como sendo de registo familiar ou popular), ou mesmo das “curvas”, p.
249, para designar as formas harmoniosas da silhueta feminina. Não se trata de
pudicícia; trata-se de adequar o estilo ao género literário que se cultiva: num
extremo, o texto provocatório, declaradamente instigador da subversão, que tudo
se permite e ao qual tudo se permite; aquém desse extremo, a sujeição ao filtro
do esmero vocabular e sintáctico, que é o que distingue a obra literária da
nota de serviço, da missiva informal, da coloquialidade ociosa. Apesar do que
aqui fica registado, manda a honestidade que se refira o facto de se estar
perante uma tradução. As “imperfeições” apontadas serão da responsabilidade do
tradutor ou do autor? E, já agora, as dezenas de gralhas, que constituem sempre
um ruído perturbador do normal fluir da leitura, são da responsabilidade da
revisora ou do gráfico? A pergunta é pertinente, a acreditar no que li algures
sobre uma troca de palavras no Memorial do Convento, de Saramago: um
gráfico bem-intencionado teria substituído “um estridor operático”, por “um
escritor operário” …
A avaliação menos positiva
da linguagem não obsta a que a história narrada seja comovedora e apaixonante,
com personagens bem caracterizadas, autênticas e, sobretudo, capazes de
conquistar a adesão emocional do leitor, que se identifica solidariamente com
os camponeses e camponesas vítimas de todo o tipo de exploração, prepotência e
abuso dos senhores e do Tribunal do Santo Ofício.
Bernat, marido de Francesca,
resgata o seu filho do castelo do senhor de Navarcles, em circunstâncias de
sofrimento e de violência, e abandona a sua casa e terras, depois de Francesca,
obrigada a amamentar o recém-nascido filho do senhor do feudo e,
cumulativamente, repetidas vezes violada, acabar por ter de abandonar o próprio
filho e por se prostituir a troco de um pedaço de pão seco, nas imediações das
muralhas do castelo do senhor.
Temática muito presente na
narrativa é também a dos pogroms. Instigado pelo clero e pela sua própria
ignorância, superstição e fanatismo religioso, o povo entrega-se ciclicamente à
perseguição das comunidades judaicas, que são despejadas das suas alfamas,
maltratadas e saqueadas.
Arnau, filho de Bernat e de
Francesca, protagonista maior deste romance, faz amizades, correspondidas, com
estes judeus, acusados de pretensos crimes, tais como a “profanação da hóstia” (sendo
que os judeus não acreditam na transubstanciação) ou o assassínio de crianças
cristãs para lhes comer o coração, os membros, e beber o sangue. É de uma
destas amizades – neste particular, com um judeu cambista – que resulta o seu
enriquecimento e rápida ascensão social. Mas é também do seu carácter recto, da
sua liberalidade para com os oprimidos e da sua insubmissão aos diktats dos
poderosos – o que inclui um matrimónio forçado e nunca consumado com uma filha
natural do rei – que resultará a sua condenação
«à
pena de sambenito durante todos os
domingos de um ano frente às portas de Santa Maria» (p. 708),
e posterior libertação, a
troco de avultada soma granjeada ao longo de anos por um fiel “colaborador”
mouro a quem Arnau, durante anos, quer conceder a carta de alforria, mas que a
recusa, acabando por aceitá-la nesta ocasião. Quanto à avultada soma, ela vai
parar às mãos do Tribunal do Santo Ofício.
Curiosamente, no diálogo
entre Arnau e o judeu cambista Hasdai Crescas, no capítulo 32, aborda-se uma
temática também presente n’A Montanha Mágica: o empréstimo de dinheiro com
juros, a usura. Hasdai rebate as ideias preconceituosas que Arnau assimilara
pelo anti-semitismo reinante, explicando-lhe que só em 1230, por decreto do
Papa Gregório IX, aos cristãos foi proibida a usura, até então praticada por todos
– cristãos e judeus; que muitos cristãos continuaram a emprestar dinheiro com
juros, através de judeus; que os cristãos haviam inventado um negócio chamado
“encomenda”, que
«não
é mais do que um empréstimo com juros … disfarçado» (p. 396),
pois consiste no empréstimo
de dinheiro do comerciante ou cambista
«a
um mercador para que compre ou venda [uma] mercadoria [recebendo depois] a
mesma quantia mais uma parte dos ganhos que [o mercador] obteve» (pp. 396-397).
Enfim, um romance que vale bem o tempo gasto na sua leitura. Um compêndio de História pode dar-nos uma ideia precisa do que foi uma Idade de Trevas, mas também de progressos e de contributos valiosos para a transmissão da cultura da Idade Clássica, com as suas conturbadas relações sociais e com a violência que, afinal, tem acompanhado o homem desde sempre. Todavia, o compêndio não nos irmana com a gente de carne e osso que então viveu e penou; não a torna palpável e digna da nossa compaixão; coloca entre o nosso olhar e o passado um ecrã de objectividade científica que tolhe a adesão emocional. Neste romance, essa fronteira desaparece: as personagens são contemporâneas do leitor, que sofre com elas.

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