sábado, 10 de dezembro de 2011

Três poemetos sempre actuais (em dia de manifestação de reformados)

Entre patrão e operário


 


Entre patrão e operário,


entre operário e patrão,


o que é extraordinário


é pretender-se união.


Não vista a pele do lobo


quem do lobo a lei enjeita.


A propriedade é um roubo.


Ladrão é quem a aproveita.


Negar a luta de classes


é negar a evidência


de um mundo de duas faces,


de miséria e de opulência.


 


          Armindo Rodrigues


 


 


Ana e António


 


A Ana e o António trabalhavam


na mesma empresa.


Agora foram ambos despedidos.


Lá em casa, o silêncio sentou-se


em todas as cadeiras


em volta da mesa vazia.


 


“Neo-realismo!” dirão os estetas


para quem ser despedido


é o preço do progresso.


 


Os estetas, esses, nunca


serão despedidos.


 


Ou julgam isso, ou julgam isso.


 


         Mário Castrim


 


 


 


 


De semântica


 


Recentemente


na fábrica


melhoraram muito


as relações humanas.


Agora, por exemplo,


ao tirar-se o prémio semanal


a uma operária


por uma mistura de fios,


por exemplo, ou por qualquer acto menor de indisciplina,


já não se diz impor um castigo;


diz-se:


estimular o sentido


da responsabilidade.


 


          Miguel Martí i Pol (tradução de Manuel de Seabra)

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