quarta-feira, 5 de maio de 2010

Pesadelo algébrico


 


Esta noite tive um pesadelo. Sonhei que ia dar uma aula sobre inequações. Simplesmente (e desgraçadamente) não sabia sequer (ignorância que se prolongou até há uns minutos) o que é uma inequação. A angústia era grande, sufocante. Como iria desenvencilhar-me perante uma turma expectante e atenta ao menor sinal de insegurança do professor, quando chegasse a altura de começar a exposição? Como iriam reagir os colegas a uma tão ostensiva manifestação de incompetência científica? Pior ainda: que diriam as pessoas, em geral, da escola e da classe docente, já tão mal vistas, sobretudo desde que Sócrates e Lurdes Rodrigues tanto se esforçaram por dar da primeira a ideia de um feudo dos privilegiados que integram a segunda?


 


Felizmente, para além da parte expositiva, a aula continha um segundo momento mais prático – tratava-se de pôr os alunos a modificar umas caixas bizarras, algo semelhante a assentos de cadeiras de palhinha. Se o objectivo pedagógico das inequações é inequívoco, já o trabalho de marcenaria numa aula de álgebra é mistério insondável. Porém, na circunstância onírica, as caixas entravam em cena como verdadeiro deus ex machina – enquanto eles se desincumbissem da tarefa, folgavam as minhas costas, maneira de dizer a minha angústia.


 


Devo ter acordado pouco depois, porque a angústia cessou. Pena foi ter ficado sem saber como tudo acabou – as caixas, a exposição sobre inequações e o mais que certo fiasco pedagógico. Outra coisa que me parece provável é que, sendo a linguagem dos sonhos tantas vezes metafórica, mais do que pesadelo, tive uma alegoria – a alegoria da função docente nos tempos que correm.

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