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1. Atentemos nas seguintes frases e expressões retiradas da primeira crónica – “A carta” – do livro Cronicando (Caminho, 3.ª edição, 1991). *
a) “Amparava-se em poeiras, seria para se acostumar à cova, na subfície do mundo?” (9)
b) “Era a carta de seu filho, Ezequiel. Ele se longeara, de farda, cabelo no zero.” (9)
c) “Essas letras cheiram a pólvora, me rodilham o coração.” (9)
d) “A velha se imovia como se tivesse saudade da morte.” (10)
e) “E o Ezequiel, em minha imagináutica, ganhava os infindos modos de ser filho (…)” (10)
2. Reparemos nos processos de formação lexical usados pelo escritor.
a) subfície foi formada por analogia com superfície; se “à superfície” significa “à tona, por cima”, “na subfície” significará “por baixo”;
b) longear-se é um verbo resultante da derivação por sufixação do advérbio longe, com o significado de afastar-se, ir para longe;
c) rodilhar deriva por sufixação do substantivo rodilha e significa angustiar;
d) imover-se resulta da derivação por prefixação do verbo mover-se e é, obviamente, o seu antónimo;
e) imagináutica é o produto da aglutinação de imaginação com náutica (arte de navegar), significando divagação (navegação mental).
3. Na grelha seguinte, estão sistematizados estes casos de subversão linguística.
“Infracção” cometida |
||
Na prefixação |
Na sufixação |
Na aglutinação |
subfície imover-se |
longear(-se) rodilhar |
imagináutica |
4. Este processo de inovação é rico de virtualidades semânticas, porque as novas palavras criadas não são meros sinónimos das que já existiam na língua. “Longear-se” não é exactamente o mesmo que “afastar-se”; é isso mais a sugestão intensificadora da distância, que lhe advém da vogal nasal. Do mesmo modo, “rodilhar” acrescenta ao banal “angustiar” a imagem da rodilha, peça de pano sem valor, usada em limpezas, que se torce para dela se espremer a água. Está-se a ver a distância que vai do seco “angustiar” ao sugestivo “rodilhar o coração”… E sempre, nestes como em todos os outros casos, a surpresa do leitor desvia-o momentaneamente do curso mais ou menos linear da leitura para um deambulação, que pode ser mais ou menos demorada. É como se, no decorrer de uma caminhada, parasse aqui e ali para contemplar um recanto da paisagem.
5. Mia Couto faz um uso tão frequente destes neologismos que eles acabam por ser um verdadeiro ex-libris da sua escrita. No entanto, outros escritores também recorrem a este processo de inovação. É o caso de Eça, com verbos como “cachimbar”, “cervejar” e “gouvarinhar” (do patrónimo Gouvarinho); de Urbano Tavares Rodrigues, que tem um volume de ensaios intitulado “Ensaios de escreviver”; de Luandino Vieira, que escreve, por exemplo, “desanoitecer” e “desconseguir” (De Rios Velhos e Guerrilheiros, O Livro dos Rios).
6. Como é evidente, não se consegue de um dia para o outro subverter e reinventar a língua com a facilidade que Mia Couto aparenta possuir. Essa familiaridade resulta de um convívio prolongado e muito atento com as palavras da língua, que o escritor transforma um pouco como o escultor esculpe.
Perguntas à Língua Portuguesa
Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.
A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o voo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem é idimensões? Assim, embarco nesse gozo de ver como escrita e o mundo mutuamente se desobedecem. Meu anjo-da-guarda, felizmente, nunca me guardou.
Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica. Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulbúrbio.
No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.
Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?
Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas? Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:
- Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?
- No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco?
- A diferença entre um ás no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?
- O mato desconhecido é que é o anonimato?
- O pequeno viaduto é um abreviaduto?
- Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente.
- Quem vive numa encruzilhada é um encruzilhéu?
- Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?
- Tristeza do boi vem de ele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?
- O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?
- Onde se esgotou a água se deve dizer: "aquabou"?
- Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço?
- Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?
- Mulher desdentada pode usar fio dental?
- A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?
- As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: "finanças"?
- Um tufão pequeno: um tufinho?
- O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?
- Em águas doces alguém se pode salpicar?
- Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?
- Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?
- Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?
- Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?
Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocámos essoutro português – o nosso português – na travessia dos matos, fizemos com que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.
Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas – o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos. Devolver a estrela ao planeta dormente.
11/04/1997
Mia Couto
Eis algumas ideias mais.
- Escreviler: a arte de escrever e ler.
- Escrever (escre-ver) tem duas flexões: eu escrevo e eu escrevejo.
- Acariciar-se e ciciar ao mesmo tempo: acariciciar-se.
- O João namoraventurou-se com a Maria, isto é, aventurou-se a namorar com ela, lançou-se na aventura do namoro.
- Alguém que perde a voz ao topar num muro fica emudecido ou emurecido?
- E se, depois de se ter calado, voltar a falar, descala-se?
- Se o despertador tocar e eu continuar a dormir, não acordo, logo desacordo?
- Navegar devagar, com todo o vagar, não será navagar?
- O destino chama-se assim porque não tem tino?
- ...
Gente, pelo amor de Deus, eu leio, gosto, leio, me perco e estou até agora a tentar entender, em Mia Couto, "desalisar" e "sulbúrbio". Não consigo!!!
ResponderExcluirAjudem
Não me querendo arvorar em especialista na escrita de Mia Couto nem conhecendo o contexto donde foram extraídos o verbo e o nome, suponho não me equivocar se lhe disser que "desalisar" é o antónimo de "alisar" e significa "enrugar" (eventualmente "despentear") e "sulbúrbio" será um subúrbio do sul.
ExcluirSaudações.