terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Livro de reclamações


Encontrei a D. Lourdes, que já não via há que tempos, e lá estivemos de conversa durante uma boa hora. Não sei se a língua da D. Lourdes é bífida, mas lá que é viperina é.

 

Fez-me queixas. Muitas. De tudo e de todos.

 

Dos médicos, que lhe deixaram morrer um parente (aliás – e para ser mais fiel ao relato que me fez – que lho mataram). Por falta de cuidados, ou de atenção, ou de interesse, ou de ciência – já não sei. Uns carniceiros…

 

Dos juízes, que a condenaram a pagar as custas num processo que intentara contra um inquilino. Uns corruptos…

 

Dos funcionários das repartições públicas, que passam a vida na conversa, na galhofa e a tomar café. Uns mandriões…

 

Dos professores, que andam sempre de costas ao alto e não ensinam nada de jeito. Uns incompetentes…

 

– E o seu neto, D. Lourdes? Que tal vai ele na escola?

 

– Ai, não queira saber! O rapaz farta-se de estudar e só tem negativas. É cada teste mais difícil! Não sei para que é tanta exigência, Santo Deus…

 

– Ah sim?! Então e que curso quer ele tirar?

 

– Ele ainda não sabe bem, mas nós gostávamos tanto que ele fosse para Medicina ou para Direito! O meu sonho era ter um neto médico, ou advogado. Quem sabe até se juiz! Mas se ele continuar assim, não sei, não sei… Olhe, ao menos que acabe o 12.º ano. O pai sempre lhe há-de arranjar alguma coisa, aí numa repartição qualquer.

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